Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

barba cabelo e gemidos

barba cabelo e gemidos

CRESPÚSCULO

                                               ANGÚSTIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A AVENTURA

“- Aqui tem, está agora convencido que eu estou a dizer a verdade, ou ainda pensa que o indivíduo que o visitou é o meu homem, como insinuou. Doutor, faça-me a justiça de não me considerar masoquista e de, ao menos, ter um certo bom gosto. E em jeito de desafio, ostensivamente, voltou a cruzar as pernas. ”

António pediu a Maria Clara para recolocar os óculos dizendo: - Como já sabia a senhora foi agredida e até sei por quem. Mas o que tem de explicar é o porquê?”

“- Está bem, vou contar-lhe o que me aconteceu. Não é uma história de que me orgulhe, por isso espero que compreenda o meu embaraço. Foi assim! Na passada Sexta-feira, fui convidada para estar presente numa festa de despedida de solteira de uma colega e amiga. Avisada de que a festa podia acabar tarde, pedi à empregada que, nessa noite, ficasse lá em casa fazendo companhia à minha filha. Assim foi feito e a minha filha até comentou:“- Oh Mãe leva aquele vestido vermelho que nunca mais usaste. Vais ver a inveja das tuas amigas.”

Ri-me e confesso que fui um pouco ousada no vestido que escolhi. Fui buscar o vestido vermelho, de que Carolina tanto gostava mas que também tinha um decote generoso.

Eu não sabia como era a festa para que fora convidada, nem que seria reservada a mulheres. Mas foi assim e depois de muita conversa, algumas bebidas e enquanto a noite avançava o álcool ia soltando a língua e a imaginação. Contavam-se histórias de conquistas amorosas, de deceções sentimentais e até de frustrações sexuais. A Rita, casadoira, pediu um pouco de silêncio e disse:

“- Apesar de tudo os homens fazem falta. Olho e não vejo nenhum. Temos de colmatar esta falha. Vamos a um clube que me recomendaram e que tem striptease masculino.”

E assim lá fomos. Durante bastante tempo senti-me incomodada com o espetáculo, principalmente, quando a numerosa assistência feminina, aplaudindo os dois artistas em palco, gritava tira, tira tudo. Levantei-me do meu lugar e fui à toilete dar uns retoques no rosto. Mas, sob o efeito da bebida tropecei e fui amparada por um homem simpático e gentil. Discretamente, ajudou a levantar-me e fez-me companhia durante o resto da noite. Dançamos, rimos e sem saber como, acabamos num hotel na Av. José Malhoa. No quarto tomei mais uma bebida que ele me preparou, bebi e caí de sono. Acordei com o sol já alto. Estava sozinha, desnudada e apenas tapada com um lençol. Todavia, espalhadas pelo quarto estavam as minhas roupas. Vesti-me à pressa, peguei na mala de mão, saí do hotel, evitando olhar o rececionista. Sentia vergonha e o receio de ser reconhecida. Afastei-me um pouco, apanhei um táxi que passava e voltei para casa.

Durante o percurso, abri a mala e verifiquei que as chaves de casa tinham desaparecido, e que a carteira dos documentos também. Contudo o dinheiro, não parecia não ter sido mexido, ou pelo menos de tal não me apercebi.

Evitei ver a minha filha que estava a ler num canto do jardim. Tive vergonha e medo que ela me fizesse alguma pergunta embaraçosa. Subi ao meu quarto, tomei um duche rápido, mudei de roupa e só depois fui ter com ela. Carolina deu-me um beijo e um abraço muito prolongado. Senti naquele abraço e no silêncio que se seguiu a premonição que a minha imprudente aventura iria ter consequências desagradáveis.

Maria Clara fez uma pausa prolongada. Parecia que a sua confissão avivara marcas, continuou a falar mas de uma maneira algo estranha e pouco percetível. Falava de solidão e de medo, de confiança e de desilusão.

António Pedro entendeu que não valeria a pena continuar uma conversa de palavras desligadas. E disse isso mesmo, sugerindo uma pausa.

- Sim acho que preciso. Abriu a mala, retirou um cigarro que levou à boca. Parou e perguntou, posso fumar? António acendeu-lhe o cigarro comentando:

- Espero que o fumo a acalme e lhe dê a tranquilidade para continuar. Porque a sua história não acaba aqui, pois não?

- Não, infelizmente. Isto foi apenas o início de um pesadelo.

- Já percebi que acabou vítima de um chantagista não é verdade? Pagou ou recusou? Será que Carolina foi raptada para reforçar a chantagem? São muitas perguntas a que me vai ter responder. Mas hoje não. Pense bem, não tente esconder um só pormenor porque eu acabarei por saber e não gosto de ver traída a minha confiança. Amanhã espero por si à mesma hora.

Quando se despediam António, de uma forma propositadamente casual, pergunta:

- Claro que tudo o que me contou o fez também na PJ, ou não?

- Bem, na verdade respondi a todas as questões mas não falei da aventura noturna. Tive vergonha.

- Já imaginava, mas não se preocupe este assunto ficará entre nós e claro, também o amigo com quem se deitou.

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D