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barba cabelo e gemidos

barba cabelo e gemidos

CRESPUSCULO

                                             A N G U S T I A

UMA LÁGRIMA

“- A sua filha Carolina é uma jovem muito bonita, mas parece-me um pouco triste, sublinha com olhos fixos na mulher sentada na sua frente, de pernas cruzadas por forma de chamar a atenção.

- Não é tristeza a minha filha foi sempre muito reservada e como não gostava de ser fotografada, escondia-se como se a máquina lhe pudesse roubar algum sentimento. A sua timidez perante uma máquina fotográfica ou perante uma câmara de filmar era uma característica que herdou do Pai. Na verdade nem me lembro de a ver numa foto onde esteja sorrindo. Contudo, no dia- a- dia era uma jovem igual a qualquer outra da sua idade, respondeu a Mãe.

“- Eu não consigo compreender, diz António Pedro. Ela não era doente, o seu ar triste só pode ter uma explicação, ela não era, ela não é, uma menina feliz. Terei razão?”

Notou ou julgou perceber algum embaraço, mas não comentou. Abriu o questionário e começou a ler os dados. Deu-lhe uma primeira leitura, voltou ao início e com um lápis começou a sublinhar partes do texto.

“ - Dr.ª Maria Clara, lembra-se, certamente, da conversa que aqui tivemos ontem. Fui muito claro, quando lhe disse que apenas aceitaria o seu caso, com garantia da sua parte de que nada me seria ocultado. Algo de bom ou algo menos bom. Mas sempre a verdade. Para mim, uma omissão, pode significar que há qualquer coisa a esconder. Por exemplo, indicou o nome do Pai da Carolina, mas não explicou por que razão, ele não está aqui consigo, o que faria todo o sentido, mesmo se estivessem separados. Igualmente não fala, quanto ao vosso agregado familiar, Pais, Sogros e até amigos próximos, etc. Tem que reconhecer que lendo o que escreveu fiquei a saber muito pouco sobre a sua filha. Foi distração, esquecimento ou não quis contar? “

“- Eu posso explicar, o meu marido morreu repentinamente há três anos. Tem sido um período duro de esquecer e por isso não fui capaz de o dizer assim tão friamente. Espero que entenda, pediu enquanto uma lágrima caía pelo rosto. E continuou:

“A minha filha adorava o Pai e temos enfrentado a sua morte, unidas na dor. Eu sou filha única. Os meus Pais vivem na província, em Barcelos, mais alguns tios e tias e primos não sei quantos.”

“- Naturalmente Carolina dava-se bem com os Avós, o que é que eles sabem do desaparecimento, interroga António?”

“- Por razões pessoais há já alguns meses que não vejo os meus Pais. Como imagina são do Minho, fica longe, e são muito devotados à religião católica, nem sempre compreendem as pessoas, que não pensam como eles, e por isso nos afastamos um pouco. Todavia, tive o cuidado de lhes telefonar, a dar a notícia do desaparecimento da neta, mas fui mal interpretada, pois o meu Pai acusou-me de ser eu a responsável.”

“- É uma atitude estranha de seu pai, ou ele sabe mais e não o disse, ou talvez não goste do homem, com quem tem mantido, digamos, um certo envolvimento?”

“- Não compreendo onde o senhor foi buscar essa ideia. Esse homem não existe.”

Mexeu-se na cadeira, descruzou as pernas e limpou a lágrima furtiva. António percebeu o cenário e continuou.

“- Vai-me desculpar, mas compreenderá a minha surpresa, por uma mulher atraente e insinuante como a Doutora não ter uma relação sentimental, o que seria perfeitamente admissível, tendo em consideração que é viúva há três anos. O que eu não acredito é que o seu namorado seja uma pessoa recomendável. E, ou muito me engano, o seu Pai pensará o mesmo. Para ser mais claro, hoje tive uma visita de um homem, que me pareceu uma pessoa da sua intimidade. Queria conhecer o teor da nossa conversa de ontem, não hesitou em ameaçar e de afirmar que tudo o que a Doutora me pudesse ter dito, não passaria de uma série de mentiras. Fiquei muito surpreendido, com a vulgaridade do sujeito e intrigado com a vossa relação. Obviamente, expulsei-o do gabinete, mas nada melhor do que esclarecer as dúvidas. Para começar, quer fazer o favor de tirar os óculos escuros?”         

A voz soou ríspida e o tom imperativo. Visivelmente constrangida, Maria Clara tirou os óculos e olhou frontalmente para António. Mostrou, o que os óculos escuros pretendiam esconder, hematomas recentes que apesar dos retoques de maquilhagem eram bem visíveis.

Para António não fora uma surpresa. Mas mesmo assim desviou o olhar.

Ficaram em silêncio durante uns breves momentos. Para Maria Clara, aqueles segundos em que exibira os sinais da agressão deram-lhe o alívio e tempo para retomar o domínio da situação.

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