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barba cabelo e gemidos

barba cabelo e gemidos

CRESPÚSCULO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                               O ESQUEMA

 

O telefone tocou, olhou no mostrador e reconheceu o número que chamava. Ouviu o amigo Artur dizer com ironia:

            “- Olá seu preguiçoso, isso são horas de um homem sozinho estar em casa e aposto que de pantufas? Não devias andar na conquista?”

            “- Sabes Artur, nunca pensei que uma vida sem obrigações fosse tão difícil de suportar. Estou cansado e nem me apetece sair de casa nem ao menos para tomar um copo.”

            “- Sim eu compreendo e porque nos conhecemos bem sei que uns olhos de mulher te podem devolver o prazer de viver. Principalmente os olhos de uma certa mulher que hoje te visitou. Não tenho razão? Como sabes fui eu que aconselhei a Dr.ª. Maria Clara e procurar a tua ajuda e tenho a certeza que ela mexeu contigo. Não tenhas medo de confessar, afinal és um homem livre, ou quase, não é verdade? Ao mesmo tempo, a investigação sobre o desaparecimento da rapariga, vai dar-te um pouco de trabalho e é disso que tu estás a precisar. O desaparecimento de Carolina Meneses não me parece um caso normal. Raptada por dinheiro não me parece, porque ainda não houve qualquer pedido de resgate. Levada para as redes de prostituição conhecidas, não creio. Rede de pedofilia também não, pois ela já é crescida para o gosto desses predadores. Além do mais a rapariga tinha uma vida muito certinha, boa aluna, os amigos ficaram também surpreendidos. Não lhe eram conhecidos namoricos, também não era frequentadora das redes sociais, segundo a Mãe declarou quando apresentou queixa. De facto a Carolina não se enquadra no tipo comum das pessoas que desaparecem e foi isso que me intrigou e me deu a ideia de que tu poderias seguir o caso, talvez explorando outros caminhos. Eu disse-o à Mãe e garanti-lhe que o assunto seria tratado com todo cuidado mas longe dos holofotes da Imprensa.”

            “- Sim eu percebo a tua posição, responde António, embora haja qualquer coisa que ainda não percebi bem. Mas voltaremos a falar. Para já a minha cabeça estala e ainda nem sequer comecei a pensar a sério do assunto.

            “- Mas é dum desafio que tu estás a precisar, respondeu o amigo. Pois, se nada fizeres, ainda acabas a ver e a seguir as telenovelas ou a comentar na TV, os crimes mais mediáticos, dizendo as banalidades do costume. Dorme bem e olha que eu gostarei de conhecer o desenvolvimento da tua investigação. Pela minha parte podes contar com a ajuda possível, dentro das regras é claro. Mas, toma nota, os contactos com a PJ serão só comigo.”

            “- Ok, fica combinado. Um abraço, adeus, terminou António já cansado de ouvir a conversa do amigo.”

            Arrumou a loiça do jantar ligeiro, acendeu um cigarro e foi para a varanda fumar. Olhava as luzes da noite na cidade, conseguia vislumbrar a cúpula iluminada da Basílica da Estrela, mais ao longe um pedaço da outra margem. Algures havia vida, havia tragédia, havia amor e também uma rapariga desaparecida. E no meio uma mulher interessante e misteriosa e um amigo que sorria.

           Deitou-se mas não conseguia dormir. Não lhe saíam da cabeça as palavras do amigo sobre o desaparecimento da rapariga. Mesmo que subtilmente, sentia que o telefonema tinha tido um propósito, orientar a investigação. Decididamente não percebia, havia qualquer coisa que se lhe escapava. Uma coisa sabia e que o perturbava. Não esquecera o olhar de Maria Clara que lhe tinha causado sentimentos tão desencontrados, como o desejo e o medo. Quanto mais pensava no assunto maior era a convicção que existia alguma ligação entre o amigo e Maria Clara. Seriam amantes ou cúmplices para esconder um segredo? E ele, teria sido escolhido como um amigo a quem se pede ajuda ou alguém de quem se espera segredo, discrição ou silêncio? A dúvida ficou sem resposta mas António não a esqueceria!

            Tentando afastar os seus pensamentos, levantou-se, foi para o escritório, abriu o computador portátil e iniciou a pesquisa de informação, sobre tráfico de mulheres. Havia muita, infelizmente, mas uma notícia em particular, despertou-lhe a atenção. Noticiava um jornal “online” britânico, que jovens que tinham sido recrutadas para trabalhar no Dubai, tinham desaparecido, sem que delas houvesse mais notícias. Já conhecia este negócio, mas os países de onde eram traficadas, eram sobretudo países do leste, e os destinos costumavam ser, as tendas dos senhores do deserto. Quando delas se fartavam, acabavam nas casas de prostituição do Cairo de Istambul ou de Beirute. O desaparecimento de Carolina não configurava aquele tráfico.

António lembrou-se de repente, que o seu primeiro caso também envolvera o desaparecimento de uma criança de tenra idade. O caso assumira contornos medonhos porque os raptores eram familiares próximos da criança. Quando incriminados confessaram mas não conseguiram, sequer, identificar os desconhecidos a quem haviam vendido a criança. Sentiu um arrepio como o que naquela altura sentira, e quase o haviam levado a pensar, fazer justiça pelas próprias mãos. Voltou para a cama, deu voltas sobre voltas e finalmente conseguiu adormecer, até que o despertador assinalou as sete horas da manhã.

            Sabia que iria ter um dia muito exigente e decidiu que precisaria de um bom pequeno-almoço. Foi o que comeu numa cafetaria do Bairro. Depois foi a pé para o escritório. Enquanto caminhava debaixo de uma chuva persistente, lembrou-se que tinha deixado o automóvel no parque de estacionamento do edifício do escritório. Não escondeu um riso amarelo pensando, ele a ficar encharcado e o automóvel convenientemente resguardado. Vá lá alguém perceber esta cabeça! Estava a arrumar alguns papéis, quando o telefone interno tocou. Sentiu que o mistério começara a fazer sentido. Mandou subir o visitante.

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