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barba cabelo e gemidos

barba cabelo e gemidos

CRESPÚCULO

 

                                                     A M O R

 

                                               A M O R

 

 

 

                                            A CASA NA COLINA

 

9 – E A CASA FICOU SÓ

 

 

Decidira que na casa da colina seria o seu lugar.

Talvez Joana voltasse e ele queria estar lá à sua espera.

De manhã, sentou-se debaixo da árvore, espreitando o movimento das máquinas ceifando o trigo. Viu homens e mulheres trabalhando desde o nascer até ao pôr- do- sol. Só nessa altura regressava a casa.

Não conseguia dormir e começou e percorrer a casa restaurada mas que ainda guardara móveis antigos. Uma arca de madeira encostada no vão de uma janela chamou-lhe a atenção. Sentou-se, abriu a tampa e foi encontrar fotografias e cartas que representavam a história de amor e de desespero de que Joana lhe dera sinais e o Manuel lhe contara.

Encontrou muitas fotografias que foi percorrendo desde o primeiro álbum até a carta de despedida dos infelizes Elvira e Jorge.

Luís tremeu, compreendera a ligação de Joana com as ruínas da casa da colina e isso foi a mais um passo para uma noite perdida. Sem dormir e sem comer.

Quando as forças lhe começaram a faltar, deixou de fazer a peregrinação até à árvore e foi ficando sentado na beira da cama. Fechava os olhos e imaginava ver Joana a cuidar da Elvira e do Jorge, o casal que ali vivera os últimos anos de uma vida sofrida.

As sombras queriam contar a história de amor mas ele já a conhecera. Ela estava escrita em cada parede.

Sentiu que as mãos começaram a tremer e os olhos cansados. Era tempo de se despedir. O verão terminou, o Outono aproximou-se trazendo as nuvens em que se iria perder. Reunindo as últimas forças, arrastou-se para uma mesa, sentou-se e escreveu o seu fim.

 

 “ Meu amor,

Eu vivi os melhores dias da minha vida infeliz, partilhando os nossos corpos. Não esperava, nem nos meus raros momentos de esperança, poder sentir de novo o calor do corpo duma mulher, ardente e apaixonada.

Sofri com a tua partida que, todavia já receava.

O teu irmão contou-me histórias da tua vida. Depois, encontrei fotografias, tuas, da Dona Elvira e do Senhor Jorge. Agora percebo a história de amor que me quiseste fazer sentir. Amor e dor. Mas dor é algo que eu já carrego.

Mas eu quero acreditar que sou capaz de enganar a noite que se cerra sobre a minha vida, e ver-te abrindo os braços como uma promessa de amor. Um minuto basta-me!

Sonho meu, tu és a vida e eu ficarei esquecido no pó que o vento irá espalhar pela colina.

Mas fui feliz. Valeu a pena.

Eu acredito que, um dia, irás voltar à casa da colina. Nesse dia pensa em mim, naquele náufrago que um dia encontraste.

Meu amor, minha loucura, minha deusa, ADEUS.”

 

Num último esforça arrastou-se para debaixo da azinheira, da sua azinheira. Deixara de se alimentar, Para quê pensava? A morte já aí vem.

E foi no crepúsculo dum dia de Outono que sentiu que um vulto caminhava na sua direção.

No último gesto, reunindo as poucas forças que lhe restavam deu um passo em frente e gritou JOANA! As pernas não responderam ao seu grito e caiu. E foi o fim.

 

 

                                         

 

 

 A CASA NA COLINA

 

8 – HISTÓRIA DE AMOR

 

 

Entretanto ao cair da noite de Domingo o Joaquim levou-o a uma outra aldeia, onde Manuel o aguardava.

Comeram quase em silêncio depois saíram sentaram-se num cadeirão, encostado à parede e virado para o horizonte e começaram a fumar.

Luís experimentou acender o cigarro, sem resultado, mais outro e acabou por desistir. Aquele encontro poderia ajudar a perceber o caminho mas…

Foi o Manuel que, fixando o olhar no Luís começou a conversa.

 

- Eu sei que Joana partiu, diz Manuel, com uma voz tremida. Confesso que não foi uma surpresa. Ainda não tive notícias e agora que o verão está prestes a terminar e ela não voltou tenho que lhe contar uma história.

A casa na colina, como já percebeu teve uma ligação muito forte à minha irmã. Foi uma ligação de entrega, amizade amor e dor. Admito que ela se escondeu e que ande, perdida no meio de pessoas, duma grande cidade, vivendo o medo do futuro. Medo por ela mesmo, por recear não ser capaz de esquecer o passado que tanto a feriu.

O Luís trouxe-lhe um novo alento, talvez não se tenha apercebido, mas Joana apaixonou-se e não foi capaz de reconhecer o amor. Fugiu, quem sabe, um dia voltará.

E para entender o medo da minha irmã, deixe-me contar uma história de amor, que se transformou em dor e sofrimento.

“ Quando o nosso Pai morreu, tinha eu quinze e Joana dezoito anos de idade, foi um choque que mexeu na nossa vida. Joana, estava em Lisboa no primeiro ano da faculdade de medicina. Fora sempre uma aluna exemplar, orgulho dos Pais que tudo fizeram para que ela seguisse o sonho.

Mas a vida é, por vezes, madrasta. Ainda não refeitos da morte do nosso Pai, e num espaço de algumas semanas, a minha pobre Mãe seguiu o mesmo caminho.

De repente o destino entregou a Joana a responsabilidade de garantir o nosso sustento e o futuro seria o que Deus quisesse. Mas o sonho da universidade ficou por ali.

Eu perdi-me, deixei-me levar por caminhos ínvios e ela encontrou-me, deu-me carinho e salvou-me.

Joana namorava desde os bancos da escola, com um colega, filho único de uma família considerada e toda a gente acreditava no casamento.

Também ele, Duarte é o seu nome, seguira para Lisboa mas escolhera outro caminho.

O destino pode trazer felicidade e dor. E Joana recebeu, apenas, dor.

Duarte que conquistara o seu coração não era o homem certo. Joana regressou a casa e ele continuou em Lisboa, depois no Porto, a fazer ela não sabia o quê.

Os Pais do Duarte eram pessoas simples mas com algumas propriedades. Tinham a casa onde viviam, uma casa grande nos arredores de Beja e uma pequena casa, esquecida no cimo dum monte.

O filho regressou a casa, perseguido por credores de dinheiro que gastara no jogo e no consumo de droga. Pagar era uma questão de vida ou de morte. Obrigou o Pai a vender as melhores terras, a melhor casa e apenas lhes deixou a casa da colina. Entretanto desapareceu.

Joana tinha por hábito subir até a casa da colina. Para ela era o momento de fuga aos desgostos que a vida lhe reservara.

E foi numa dessas visitas que encontrou os Pais do Duarte que não lhe souberam esconder que com eles apenas tinha levado os desgostos, a pobreza e a doença.

Joana investiu algumas, pequenas, poupanças e assegurou condições de vida para aquele casal.

Entretanto a doença da Dona Elvira agravou-se e foi internada no Hospital de Beja. Numa das visitas o médico chamou Joana de parte, dizendo-lhe que o hospital pouco poderia fazer por uma doente, sofrendo de uma doença sem cura, apenas era sujeita a cuidados paliativo e que chorando pedia para voltar para casa. E eu, digo-lhe, não apenas como médico mas como ser humano, que ela terá um fim menos doloroso, em casa, junto das pessoas que ama.

 

O marido, o senhor Jorge, olhou para Joana e com os olhos rasos de lágrimas, pediu ajuda. Joana abriu os braços e disse sim. Para aquela pobre família destruída, passou a ocupar o lugar da filha que eles haviam sonhado.

Foi assim durante mais de cinco anos, até que um dia, a minha irmã foi a Beja levantar a medicação, e voltou a correr para a casa da Colina. Sentiu um pressentimento, lembrou-se do beijo que o Senhor Jorge lhe dera quando ela montara a motocicleta para ir a Beja. Sim o calor do beijo tinha um sabor de despedida.

Conduziu com a máxima velocidade que a motoreta lhe permitia, subiu a encosta e entrou na casa da colina.

E o pressentimento transformou-se em realidade. Na cama jazia a Dona Elvira e deitado a seu o marido que a decidira acompanhar na última viagem.

Na pequena mesa do quarto Joana encontrou a nota Jorge escrevera antes de pôr termo à vida e que dizia:

 

 

“ Joana:

Do fundo do coração obrigado por tudo o que nos deste. Foste a única alegria que vivemos depois do abandono a que por amor tivemos de enfrentar, Tu foste a luz, o riso e a alegria para dois velhos cansados. Mas tudo tem um fim. Peço-te, não chores e vive a tua vida, tu mereces ser feliz.

Adeus

Elvira e Jorge.”

Manuel acabara de contar a história da casa na colina. Uma história de amor que ficara gravada no coração de Joana e permanecia viva em qualquer canto daquela casa. Olhou para Luís e rematou:

- Luís percebe a razão por que Joana se escondeu?

Luís acenou o sim e afastou-se.

Decidiu que a casa da colina seria o seu lugar. Talvez Joana voltasse e ele queria estar lá à sua espera.

Luís acenou o sim e afastou-se.

Decidiu que a casa da colina seria o seu lugar. Talvez Joana voltasse e ele queria estar lá à sua espera.

 

 

 

 

 

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