Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

barba cabelo e gemidos

barba cabelo e gemidos

CRESPÚCULO

                                        A M O R

 

 

8 – A COLINA DA SAUDADE

 

Luís leu e releu a carta. A despedida não fora uma surpresa, ele já pressentia que o sonho morrera. Era o fim que receava pois com os seus problemas, o seu destino preso por uma doença sem cura, nada poderia oferecer a alguém tão carente e desiludida da vida como Joana se mostrara. Mas Joana teria uma história de amor destruído e a carta que lhe deixara era o testemunho. Joana partira deixando-o mais ferido do que alguma vez poderia pensar.

Sentiu que o destino o empurrava de novo para a casa da colina. Era o lugar que escolhera para esconder as suas dores, as suas angústias e quase se esquecera no turbilhão de sentimentos em que se deixara cair.

Pois bem, iria continuar o sonho e, quem sabe, talvez viesse a encontrar a paz.

Vivera quase sempre só. O seu casamento fora um erro e durara pouco tempo. Depois o seu tempo passara-o entre o trabalho, solitário e sem futuro e um ou outro encontro ocasional, e o prazer de fumar, cigarro após cigarro enquanto sentado num banco de jardim, assistia ao movimento apressado de pessoas que não conhecia.

Agora era tempo de completar o único objetivo de vida que lhe restara. Escrever o livro.

Decidido, acertou os pormenores com o ajudante do Manuel, embalou as suas coisas e voltou a subir a colina. Enquanto caminhava sentia renascer a esperança. Afinal, fora lá que encontrara Joana, fora na colina que se deixara enfeitiçar. E pela primeira vez acreditou que seria lá que se encontrariam de novo ou se perderiam para sempre.

Cheio de energia começou a penosa subida. Foi descansando ao longo do caminho e já o sol estava no seu zénite quando chegou ao destino. Descansou um pouco e entrou em casa, ainda com alguma desconfiança.

Mas encontrou uma grande diferença. Não precisaria mais de dormir ao relento pois a casa estava limpa, pintada e até tinha meia dúzia de peças de mobiliário já antigo.

O Joaquim transmitiu-lhe o recado do Manuel:

- O meu patrão disse que os trabalhos que pediu já foram executados. A casa já tem luz e água canalizada. Também vai encontrar roupas de cama, móveis de cozinha que a Menina Joana já havia encomendado. Ele garante que o senhor irá gostar da sua nova casa.

Ah e já me esquecia de lhe dizer, O senhor Manuel gostaria de jantar consigo na próxima noite de domingo. Eu virei buscá-lo se estiver de acordo.”

Luís concordou.

Ficou sentado a ver o sol que se punha no horizonte. Estava agitado e não conseguia fechar os olhos.

Pensava que se voltasse para a cidade poderia deixar que Joana continuasse a viver a sua vida. Afinal, pensava, “terei eu sido egoísta e pensar só em mim e trazer a inquietação a quem não a merecia?

Pela noite dentro, sentiu que estava perdido. Ou partia ou ficava?

Não conseguiu dormir. Levantou-se para ver o nascer do sol e ficou admirando a cor das searas, prenúncio de que a época da ceifa se aproximava. E com ela, talvez Joana regressasse.

A colina seria do ponto de encontro. Ele esperaria porque, agora acreditava, o amor é uma coisa maravilhosa e um dia iria ver Joana subindo a colina.

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D