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barba cabelo e gemidos

barba cabelo e gemidos

AMOR (CRESPÚCULO)

 

2 – PARAÍSO

Acordou sentindo a brisa suave da tarde que se aproximava. O silêncio, a calma, eram o remédio que procurava para as suas dores. Respirou fundo, bebeu o ar puro e sentiu que o Paraíso seria ali, naquela aldeia perdida na imensidão do seu Alentejo.

Olhou em redor guiado pelo barulho de uma porta que, mesmo a seu lado, se abria.

Um homem sai, coloca uma proteção de fitas coloridas contra as moscas e só depois se dirigiu ao desconhecido sentado na soleira na frente da casa, dizendo:

“-Vossemecê parece perdido. Posso ajudar? Talvez precise de alguma coisa do meu estabelecimento? São horas de abertura, é só entrar e escolher, porque aqui não falta nada, e o que não houver hoje, posso garantir que será entregue amanhã à tarde!”

Aliviado por encontrar alguém, Luís esboçou um sorriso e respondeu:

“- Sabe, eu estava era admirado por não ver ninguém. Até pensava que me tinha enganado no destino. Ainda não sei do que irei precisar. Primeiro terei de chegar a casa, arrumar as minhas coisas ver então o que me faz falta.”

Então o senhor vem para ficar e presumo na casa da colina que ouvi dizer ter sido vendida?”

“- Sim e fui eu quem a comprou. Queria um lugar isolado, onde pudesse encher os pulmões de ar puro e beber a paisagem. Não encontrei nada melhor e por isso aqui estou, contente, mas embaraçado com tanta bagagem que não sei como transportar.”

O meu nome é Luís “

Meu amigo,lá isolada a sua casa é. Respirar ar puro e admirar a paisagem também lhe vai ser fácil, mas a casa está desabitada há muito tempo, poderá encontrar algumas limitações ao conforto em que terá vivido. Nada, porém, que não possa ser resolvido. Mas, acredite o que lhe digo, os primeiros tempos não serão fáceis. O acesso também não o será, pois se bem me recordo, existe apenas um carreiro, que deve estar em mau estado, e que era utilizado, por uma carrocita pequena, puxada por um burro, quase tão velho como o casal que lá habitava, e lá morreu. Não o quero desmoralizar, o sítio é muito bonito, de verdade, mas também vai encontrar dificuldades. Por exemplo e para já, não terá acesso ao abastecimento de água, à distribuição de energia elétrica e para ajudar não existe rede para o funcionamento de telemóveis. O abastecimento de água será o menor dos males. Tem, ao que eu me lembro, uma nascente de água mesmo perto da casa, com um pequeno tanque de reserva. E o resto terá de se habituar. Porque garantido, só terá a calmaria dos dias no Alentejo e a solidão como companheira. Eu poderei ajudar, passarei para o visitar, dia sim, dia não. Pode passear e deixar escrito num papel, pregado na porta, o que vai precisar.

Agora e para o ajudar a transportar as suas coisas, eu resolvo a questão utilizando a minha motoreta com atrelado. Mas terá de esperar mais um pouco, até que o empregado que me ajuda na loja, se apresente ao trabalho.”

“- Oh meu amigo, nem imagina o meu alívio. Por isso esperarei o tempo que for preciso. Na verdade, talvez eu tenha sido imprudente ao escolher a casa, como o refúgio que precisava para descansar, mas agora não me resta outra alternativa que não seja a de contar com a sua amabilidade e simpatia. Por isso lhe agradeço e esperarei o tempo que for necessário.”

- Então eu já volto. Já agora apresento-me. “O meu nome é Manuel Carvalho e aqui nas redondezas toda a gente me conhece pois, além de comerciante, sou também o Presidente da Junta da Freguesia.”

Passou algum tempo, mas cansado como estava nem isso era importante. O sol começara a cair quando Luís ouviu o ruído estridente de um motor. Era o Manuel Carvalho que se aproximava, montado na motoreta e puxando um pequeno atrelado.

“- Vamos embora amigo, vamos lá subir a encosta. A casa na colina espera por si.”

Foi uma subida difícil. Como Manuel previra, o caminho estava quase intransitável o que lhe exigiu perícia, acelerações do motor e em alguns lugares foi necessário recorrer à força de braços para mover a composição. Manuel era um homem ainda jovem, criado no campo e, apesar do suor que lhe escorria pelas fontes não parou de empurrar. Luís também procurou ajudar, mas entre tropeções e escorregadelas a sua ajuda foi apenas cheia de vontade, porque força não tinha. Mas conseguiram chegar ao terreiro em frente da casa. Manuel ajudou a descarregar a bagagem e despediu-se:

            “ Vou ter de regressar a tempo de fechar a loja e seguir para uma reunião na Junta. Não se esqueça que pode, sempre, contar comigo e não esqueça, a casa não está preparada.

            “- Não se prenda comigo amigo Manuel. Vou descansar olhando a paisagem que, tenho a certeza, me irá deslumbrar.

Luís assistiu à partida do Manuel. Estava só, olhou em redor, viu uma grande árvore, uma azinheira que desafiava o sol. É lindo, pensou, enquanto sentado no chão admirava o entardecer.

Ajeitou-se, acendendo um cigarro que saboreou com prazer e percebeu, que só aquele momento, admirando os campos que se estendiam por pequenos montes e vales até onde a vista alcançava, já teria pago o cansaço da sua aventura.

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