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barba cabelo e gemidos

barba cabelo e gemidos

AMAR NÃO É PECADO

Reencontrou-se com a realidade. Investigar, descobrir, analisar, comparar isso fora o que sempre fizera e não encontrou alternativa. A rotura que pensou fazer não passou de um equívoco que quase o atirara para a demência. Não fora fácil reconhecer o erro. O vírus estava lá, comandara todos os passos da sua vida e de tal modo que, quando a Administração do condomínio, lhe pediu o nome para a identificação no painel de entrada do edifício, só lhe ocorreu indicar o que sempre fora: António P. Castro – Investigador. Demorou algum tempo a arrumar o gabinete, enchendo as estantes com os livros que sempre o haviam acompanhado, verificou a funcionalidade do programa de computador que mandara instalar, contou à ex-mulher e alguns amigos o que tinha decidido fazer e ficou esperando o seu primeiro cliente. Naquele dia, o telefone interno tocou e do outro lado a rececionista perguntou: - Tenho aqui à entrada uma senhora que lhe pretende falar. Não tem contudo hora marcada e não existe registo de chamada prévia. O Senhor Doutor pode recebê-la? Hesitou, algum caso de divórcio quase de certeza, o que não me agrada mesmo nada. Mas mesmo com essa dúvida e com a secreta esperança de encontrar um caso interessante, optou por responder, sim. E com essa decisão iria começar a aventura que o marcaria para sempre. - Pode subir ao 10º. Andar letra C, o Doutor António Pedro, espera-a minha senhora, informou a rececionista. António Pedro retomou o seu hábito, ajeitou o nó da gravata, vestiu o casaco, mirou-se ao espelho e gostou de se ver, e abriu a porta de acesso ao gabinete. A mulher que entrou era atraente, alta, cabelo negro, como os olhos, elegantemente vestida, e não passaria despercebida em qualquer lugar. Andaria na casa dos trinta e cinco anos. Ajudou-a a tirar o casaco, que colocou dobrado nas costas de uma cadeira, puxou de uma poltrona de braços, colocada em frente da secretária e convidou-a a sentar-se. - Então, em que lhe posso ser útil, perguntou? - O Doutor desculpe ter vindo sem marcação, mas o seu nome foi-me sugerido pelo Inspetor Marques da PJ, como sendo a pessoa certa para me ajudar. O meu nome é Maria Clara Figueiredo de Meneses, e estou muito preocupada com o desaparecimento da minha filha de 13 anos. E por isso aqui estou, para contratar os seus serviços. Quero que me encontre a minha filha! António Pedro sentiu alguma frustração. Depositara esperanças num processo apelativo, e afinal era, apenas, um caso de desaparecimento de uma menor. Com aquela idade o costume era a fuga com o namorado ou o receio de comunicar algo que a embaraçasse, fosse sobre o aproveitamento escolar ou algum problema típico duma adolescente. Por momentos pensou recusar. Mas qualquer coisa no olhar da mulher sentada na sua frente fê-lo estremecer e tomou a decisão de continuar. Aqueles olhos negros, profundos, desvendaram-lhe a alma. Ele sentiu que o iriam fazer esquecer o passado recente. Com um ar distante, António Pedro foi dizendo que a PJ, tinha um excelente departamento especializado para tratar estes casos, têm tido muito sucesso e, além do mais, têm também os meios necessários e a experiência para investigar esse tipo de situações. Ele pelo contrário não era experiente nessa área da investigação. Maria Clara argumentou que a PJ tinha sido o seu primeiro caminho. Dera todas as informações que lhe pediram e o processo fora aberto. Mas, dizia recear que, apesar da reconhecida competência do Departamento, o caso da filha fosse mais um. Por outro lado, vim ter consigo recomendada por um amigo e antigo colega, porque o senhor tem uma grande vantagem, tem tempo e uma reconhecida sensibilidade e eu ficaria mais tranquila se o desaparecimento da minha filha for investigado de perto, quase me atrevo a dizer em regime de exclusividade. E estou disposta a pagar por isso. Peço não me desiluda eu acredito que o senhor vai conseguir trazer de volta a minha filha. Ficaram um momento em silêncio. O apelo de Maria Clara tinha sido feito de forma veemente e nervosa, mas António Pedro não vislumbrara no olhar um sinal de angústia ou de dor. Era estranho, pensava, não lhe parecera que a visitante, fosse assim tão capaz de esconder sentimentos tão naturais. Prolongou o silêncio, olhava fixamente o rosto da senhora, como se quisesse captar qualquer sinal que o levasse a recusar. Foi com um frémito que desconfiou, que o caso não era apenas o desaparecimento da jovem, e isso fê-lo mudar de ideias. Sentira algum desconforto, como se alguém o estivesse a empurrar para um lado negro. Levantou-se da secretária, andou alguns passos de um lado para o outro, parou em frente da cliente, olhou-a nos olhos e disse: - Minha senhora, estou disposto a aceitar o seu caso mas terá de confiar, absolutamente, em mim. Isso significa, dar-me todas as informações que eu lhe pedir, mesmo se elas lhe parecerem deslocadas ou até demasiado íntimas. Vou precisar de a conhecer, saber o seu agregado familiar, conhecer o que pensa o Pai da criança, como é a rotina do vosso dia-a-dia, onde passam férias, com quem costumam conviver, amigos, etc. Aceitarei investigar o caso que me traz, mas quero que fique bem claro, não vou ser simpático e que a conclusão, se a ela chegar, pode ser duma imensa dor e eu não deixarei de a confrontar. Se estiver de acordo, preencha agora ou entregue-me depois, o questionário que aqui tem, e estendeu-lhe uma folha A 4, e junte uma série de fotos da sua filha, sozinha ou em grupo, que tenham sido tiradas nos dois últimos anos. Quanto ao pagamento dos meus serviços falaremos mais tarde. Não antevejo custos extraordinários. Maria Clara aceitou as regras sem levantar qualquer obstáculo, dizendo apenas que não gostaria de ver a fotografia da filha, nos ecrãs da Televisão ou nas primeiras páginas dos jornais. Compreenda o meu desejo de privacidade. Pareceu-lhe razoável e tranquilizou-a, acrescentando: -Concentre-se no fundamental, tente encontrar qualquer coisa a que não tenha prestado atenção e que poderia ter originado a que a sua filha perdesse a confiança e fugisse. Às vezes há um pequeno sinal e isso pode ser a diferença entre o sucesso ou o insucesso. Mas pense bem, não me esconda nada. Aqui tem o meu cartão com os números de telefone e o endereço de correio eletrónico. Esteja à vontade para me contactar se algo lhe ocorrer. Amanhã, pelas 14 horas gostaria de a receber, e comentar os dados do questionário que lhe entreguei. Esperarei por si. Entretanto deixe-me por favor um cartão com o nome e endereço. Acompanhou a senhora à porta, despediu-se com um aperto de mão que lhe pareceu algo estranho. Reparou num certo sorriso de Maria Clara e, ele sentiu um fluxo de sangue que lhe percorreu as veias.

 

 

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