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barba cabelo e gemidos

barba cabelo e gemidos

AMAR NÃO É PECADO

Passaram três meses do dia em que, tomado por o impulso quase sem sentido, tomara uma decisão de sair de casa. Nunca pensara que aquele gesto intempestivo o pudesse deixar tão exposto à dor da saudade, à mágoa da solidão, à tortura do desejo reprimido, enfim a uma vida sem sentido. Reconhecia que partir fora morrer um pouco e quando se olhava no espelho via uma figura que nem reconhecia. Afinal ele precisava de Filomena, da sua presença, da sua carícia, do seu amor. E mais do que nunca sentia a falta de alguém que tinha sido a sua companheira nos bons e nos maus momentos. Aquele gesto impensado, iria deixar mágoas para além do que poderia supor. Saíra de casa cheia de luz e calor e entrara para uma casa vazia. Nascera e fora criado no Bairro de Campo de Ourique e com a morte dos Pais ficara com a casa, um pequeno apartamento que mantinha tal como o havia recebido. Era ali que se acolhera. Durante o dia passeava por Lisboa, deixando escoar o tempo até à hora que mais temia. A hora de voltar para casa, que já não era a sua. E então refugiava-se no tabaco, um cigarro atrás de outro, que fumava à janela ouvindo o barulho duma rua de muito movimento. Envelhecia e os sonhos que pensara viver, as viagens que ficaram por fazer tudo se desmoronou. E no desespero foi ganhando força para pedir perdão e voltar para casa. Era já noite quando telefonou e não foi atendido. Voltou a ligar uma e outra vez e sem resultado. Filomena era advogada e trabalhava numa sociedade com alguns colegas. António Pedro evitava contactar o escritório, mas acabou por o fazer e ouviu a voz que o tranquilizou. Filomena disse-lhe que já não sabia viver só e por isso se mudara para casa dos Pais. António Pedro confessou a vontade de a encontrar pelo que lhe sugeria uma ida ao cinema ou um jantar num lugar que ambos conheciam e de que gostavam de frequentar. Ficou feliz porque ela aceitou, saíram mas ele não soube quebrar o gelo que ele próprio havia criado. Filomena continuava alegre e linda e os olhos pareciam desejar ouvir uma palavra de amor. Mas ele não teve coragem de pronunciar. Se ela conseguisse ler nos seus olhos as palavras que não conseguira dizer, como teria sido fácil! António Pedro insistiu em mais encontros, mas algumas vezes Filomena não quis ou não lhe foi possível aceitar. Foi no meio de um encontro em que falaram de tudo menos o que era importante que Filomena lhe perguntou: - António, sinto que precisas de me dizer algo importante mas não consegues. Sê sincero, se queres o divórcio diz e cada um seguirá o seu caminho! António Pedro estremeceu e respondeu negativamente. Mas aquela simples pergunta, causara-lhe um estranho mal-estar. Ela já teria outra relação, concluíra roído de ciúmes.” Foi o começo de um período em que sentiu perdido. Um homem perdido na confusão dos seus sentimentos, perdido na cidade que tão bem conhecia, perdido dos amigos e das referências, perdido de si. Quando conseguiu enfrentar o deserto em que a sua vida se tornara, tomou consciência que algo teria de fazer sob pena de entrar num caminho que poderia não ter retorno. Essa foi o aviso que o médico amigo lhe deu. Sentindo que Filomena poderia estar a ficar longe, foi espaçando os contactos e começou a dar voltas à cabeça, para encontrar qualquer coisa, que lhe ocupasse o tempo. Não seria fácil pois era egocêntrico bastante, para pensar que tudo se devia concentrar à sua volta. Em consequência, qualquer atividade que implicasse partilha ou supervisão daria sempre mau resultado. Os outros não o compreendiam nem aceitavam a sua, por vezes, irritante impertinência. Até que certo dia em cumpria o seu calvário, andando sem destino pelas ruas de Lisboa, deu por si debruçado nas muralhas do Castelo. Estava um lindo dia de sol e a paisagem duma cidade que se estendia a seus pés deu o sossego que procurava. Estava a viver um momento de ausência que foi quebrado por um antigo colega que lhe deu uma palmada no ombro dizendo: - António, o que andas a fazer? À espera da morte? Ela vai chegar um dia não te preocupes! As palavras do amigo deixaram-no preocupado. Estaria assim tão mudado, perguntou-se? Quando chegou a casa olhou-se no espelho, alisou o cabelo grisalho mas ainda farto e percebeu que tinha mais rugas do que quando passava dias e dias a investigar e que até o fato que usava estava amarrotado dando um ar de abandono. Envelhecera e alguma coisa tinha de fazer para mudar. Depois de muito pensar, escolheu o caminho. Voltou para fazer o que sempre o apaixonara. Iria abrir um pequeno escritório de investigações. Só aceitaria trabalho se fosse do seu agrado, pois não ficaria dependente da situação financeira. Era mais do que um negócio, o que pretendia era encontrar razões para ativar as células e despertar os sentidos. E foi assim que, tantos meses depois, se sentiu fascinado com o lugar que escolhera para começar a sua nova vida. Um escritório bem no alto duma torre nas Amoreiras.

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