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barba cabelo e gemidos

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A VIDA EM CONTRAMÃO

CAROLINA

Num momento a jovem independente, assim havia sido educada, sentiu que o céu havia caído sobre a sua cabeça.

Foi com coragem que acompanhou a agonia da Mãe e ainda mais o sofrimento do Pai.

Passava por momentos difíceis, ficara só. E aos vinte e quatro anos era o desabar dos sonhos.

O Pai parecia ter desistido de viver e ela tinha-o forçado a recorrer a ajuda médica para ultrapassar a crise. Foi aconselhado a pedir uma mudança do trabalho. O frenesi com que sempre se dedicara à investigação não seria agora compatível com a debilidade física e intelectual em que o Pai se deixara cair.

Carolina sentiu que o chão lhe fugia debaixo dos pés e que também os seus sonhos ameaçavam ruir.

Ganhara coragem para acompanhar o Pai no seu lento, mas evidente declínio, mas a um preço elevado. Iria abdicar do caminho que havia sonhado, esqueceria os seus projetos de futuro no campo da investigação apesar de ter sido convidada a frequentar um mestrado em Nova Iorque.

Mas agora, iria esquecer, apagar os sonhos e regressar ao quotidiano de tantos jovens como ela. Seria mais uma licenciada lutando por encontrar trabalho.

E o seu futuro foi o assunto da conversa que o Pai, numa noite de Outono triste e chuvoso, aparentando alguma recuperação física e olhando com ternura para a filha que se ocupava das lides domésticas, começou:

- Minha filha, eu devo-te muita da força que estou a recuperar depois de perder a tua Mãe. Tu tens sido a luz que me tem guiado e agora, é tempo de retomar o teu sonho. Eu vou-te exigir que o faças.

Conta com a ajuda do Pai. Escolhe o caminho e eu estarei a teu lado.

Eu sei que passaram longos meses que para ti foram também muito difíceis. Perdeste a Mãe, companheira e eu não fui capaz de te ajudar. Perdoa-me.

Agora sinto ter forças para viver porque sei que tu onde estiveres te lembrarás de mim como eu me de ti.

Carolina, surpreendida com a proposta do Pai, esboçou um gesto de recusa mas, mas abraçando-se ao Pai, sentiu o bater do coração e reconheceu que para ela e para ele, a vida teria que continuar.

Acabou por exigir que, ela apenas iria para Nova Iorque, desde que o Pai aceitasse ser acompanhado por alguém de confiança. Sugeriu uma senhora, mãe de família, vizinha e amiga, antiga professora, que conhecia desde os bancos da escola. O Pai aceitou.

E Carolina partiu, cheia de dúvidas mas prometendo a si mesma que a qualquer sinal voltaria a casa.

E ao despedir-se no Aeroporto, depois de terem combinado os contactos, Carolina sentiu que a força do abraço do Pai era mais do que uma despedida e tremeu. As palavras que o Pai lhe murmurava ao ouvido eram ditadas pela dor dum homem que teria deixado de encontrar uma razão para viver, pois, dizia-lhe: Com o tempo, com o tempo tudo irá desaparecer.

 

 

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