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barba cabelo e gemidos

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A VIDA EM CONTRAMÃO

LEONOR

 

Quando António se refugiava do seu quarto, revendo os anos passados, a vida com as suas alegrias e tristezas, o tempo era mau conselheiro. Tornara-se um homem que se abeirava dos quarenta, triste e melancólico. Para ele a vida passava a ser um mês de Novembro, com a chuva e nevoeiro contantes do seu dia-a-dia.

E então refugia-se dos processos que tinha que investigar, mastigava as ordens que recebia do Ministério Público em que deixara de acreditar.

Os dias eram longos, a noite o suplício. A lembrança de Marjorie não o deixava descansar. As recordações do seu sorriso, do seu olhar atento a tudo e para todos os que a rodeavam eram marcas que lhe deixara para sempre.

Para sempre?

Foram anos em que se sentira abandonado e esquecido. Apenas o trabalho lhe dava forças para continuar ativo, mas cada vez mais desgostoso da profissão que escolhera.

Os colegas sentiam o envelhecimento, as rugas de velhice, os cabelos brancos e tentavam trazê-lo à realidade. Era sempre convidado para encontros de família, festas de aniversário, mas sempre encontrara uma desculpa para faltar.

Até que um dia, aceitou jantar em casa do colega que o assessorava nos processos mais difíceis. Bernardo, assim se chamava o colega fez questão de salientar que não aceitaria uma desculpa. A minha amizade e consideração merecem.

E foi o princípio de uma nova estória de amor.

Durante o jantar ficou sentado de frente com Leonor, irmã do Bernardo e o que começou por ser uma conversa formal, pouco a pouco, transformou-se numa troca de experiências de vida.

António começou por contar momentos da sua vida passada, desde que a revolução em Portugal o colocara no caminho de alguém especial. Mas o tempo passara e, cinco anos depois, ficara apenas a recordação e, confessava, alguma, muita corrigiu, amargura

Também Leonor, fitando António com os olhos ternos contou a sua história.

- E disse:

-Sofro a tristeza do amor não correspondido. Conheci alguém que me fez sonhar e depois vim a saber que ele, nome não digo, era já casado e com filhos. Imagina eu, jovem de pouco mais de vinte anos, ter sido apenas uma escapadela para um homem comprometido.

Não mais esqueci e fechei-me na concha e prometi a mim mesma, que não mais me deixaria enganar.

António ficou fascinado com os olhos carentes daquela mulher ainda jovem. E sugeriu que duas vidas quase desfeitas pelo amor, podiam e deveriam continuar a conhecer-se.

E assim foi. De encontro em encontro, confidência após confidência, enamoraram-se e começaram a partilhar a companhia.

E o que começara numa conversa acabou num grande amor.

A paixão despertou aqueles corações magoados e deu-lhe nova vida.

Casaram em Setembro, viajaram para a Itália, que Leonor confessava ser o País do amor.

E amaram-se perdidamente. Dois corações feridos pela vida eram agora pulsares de ternura, amor e paixão.

Leonor engravidara algum tempo depois do casamento. Fora ela que assim quis, e não partilhou com António a razão por que ser Mãe naquela altura era tão importante e tinha um significado tão profundo.

E a gravidez, devidamente acompanhada pelo médico desde os primeiros sinais, acabou por chegar a seu termo e através de uma cesariana, deu à luz uma menina.

Carolina, foi o nome escolhido por Leonor que António aceitou.

E a felicidade foi plena durante os anos em que partilharam o crescimento de Carolina, o seu desenvolvimento na escola, era uma aluna excelente, e não teve qualquer dificuldade em seguir para a Universidade, com dezassete anos de idade.

Mas o destino foi cruel.

Leonor sentiu que o medo que sempre escondera, quando o médico mandou refazer alguns exames.

Tudo bem, pensava António, prevenir é melhor que remediar. Todavia Leonor tremeu. Ela sabia que nos seus genes haveria algo que teria recebido da Mãe, precocemente desaparecida. E essa herança era uma doença que lhe ria roubar a vida.

E foi um pequeno passo até ao fim.

Na cama do hospital Leonor segurou a mão de António com as forças que ainda lhe restavam e murmurou: “Morrer de amor”.

 

 

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