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barba cabelo e gemidos

barba cabelo e gemidos

CRESPÚSCULO

 

 

 

 

 

 

O 3º HOMEM

Sabia que iria ter um dia muito exigente e decidiu que precisaria de um bom pequeno-almoço. Foi o que comeu numa cafetaria do Bairro. Depois foi a pé para o escritório. Enquanto caminhava debaixo de uma chuva persistente, lembrou-se que tinha deixado o automóvel no parque de estacionamento que lhe coubera quando arrendara o escritório.

Entrou e ainda não se sentara e já o telefone tocava. A telefonista perguntava se podia mandar subir um cavalheiro que se encontrava muito inquieto e agitado e insistia em falar com ele. Como não tinha nada agendado para a manhã, deu ordens para subir. Abriu a porta do escritório e mandou entrar o homem impaciente. Era um jovem, da casa dos trinta anos, com aspeto muito cuidado, com uma boa figura a lembrar os galãs de telenovela. Mal se deixou cair na cadeira começou imediatamente a falar:

            “- Tenho uma vida muito ocupada e não posso perder tempo com conversa inútil, diz o desconhecido. Quero que me diga, que mentiras a Maria Clara lhe veio contar, ontem à tarde. Não negue, porque ela própria me disse, que esteve consigo.”

            “- Meu caro amigo, os assuntos que trato com os meus clientes são confidenciais. Se tem algo para contar relacionado com o caso faça-o, de contrário a porta de saída é aquela por onde entrou.

            “- Fique sabendo que eu não receio um detetive de meia tigela, por isso a sua observação não me afeta. Aviso-o, para seu bem, não deve meter-se em assuntos para onde não é chamado, pode dar-se mal. Ainda lhe digo mais, qualquer coisa que a Maria Clara lhe tenha contado, não passa de uma invenção.

            “- Repare bem como eu estou a tremer, deve ser das suas ameaças, responde António. Levantou-se da cadeira aproximou-se do desconhecido, pegou-lhe pela gravata, levou-o à saída e em jeito de despedida, segredou-lhe ao ouvido: - Já tratei com homens violentos, criminosos e assassinos e nunca tive medo. Achas que um idiota qualquer armado em esperto me vai assustar? Ponha-se no meio da rua, antes que o corra a pontapé, mas olha bem para mim, penso que ainda nos vamos encontrar. Mas será quando eu quiser. Resmungando o desconhecido abriu a porta do elevador e saiu.

            Sentado à secretária António procurava esquematizar as ligações entre Maria Clara, o Artur e agora um gigolo profissional. Tinha a certeza que o desaparecimento da rapariga fora motivado pela recusa em compreender as relações amorosas da Mãe ou fora um desaparecimento calculado para a obtenção de proveitos financeiros para o grupo.

Não tinha dúvidas. Maria Clara mentira.

Saiu para passear, era hora de almoço mas não tinha fome. Sentia que estaria a ser peça de mentira. Voltou ao trabalho pois queria preparar a entrevista marcada para as duas da tarde. Passavam poucos minutos, quando a rececionista ligou, avisando da chegada da cliente. Deixou tocar por duas ou três vezes a campainha do gabinete, velha técnica para enervar a outra parte. Maria Clara entrou, cumprimentou com um aperto de mão, e sentando-se na cadeira de braços, que o investigador lhe apontou, cruzou as pernas num movimento amplo e sugestivo

            -“. Aqui estou eu Doutor, como tínhamos combinado trago o questionário preenchido, e este envelope, com meia dúzia de fotos, recentes, da minha filha.”

António Pedro recebeu os documentos, colocou-os na secretária. Depois fixando a cliente sugeriu-lhe que tirasse os óculos escuros, pois gostava de ver os olhos com quem falava. Desculpará, mas é um hábito que não perdi. Os olhos podem dar respostas diferentes das palavras.

Maria Clara hesitou e pediu para continuar com os óculos.” Sabe, sinto-me mais à vontade, porque não tive tempo, nem disposição, para me maquilhar.” António encolheu os ombros, e abriu o envelope das fotos que espalhou na secretária.

Enquanto olhava as fotos de Carolina, uma jovem bonita, loira, cabelo caído sobre os ombros mas sempre de semblante fechado, sem um sorriso, António Pedro não conseguia esconder que se deixara envolver numa história que já não dominava. Sentia-se a caminhar sobre uma fina aresta que um sopro o poderia derrubar. Ele sabia que estava a ser seduzido e pior, começava a gostar.

 

 

CRESPÚSCULO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                               O ESQUEMA

 

O telefone tocou, olhou no mostrador e reconheceu o número que chamava. Ouviu o amigo Artur dizer com ironia:

            “- Olá seu preguiçoso, isso são horas de um homem sozinho estar em casa e aposto que de pantufas? Não devias andar na conquista?”

            “- Sabes Artur, nunca pensei que uma vida sem obrigações fosse tão difícil de suportar. Estou cansado e nem me apetece sair de casa nem ao menos para tomar um copo.”

            “- Sim eu compreendo e porque nos conhecemos bem sei que uns olhos de mulher te podem devolver o prazer de viver. Principalmente os olhos de uma certa mulher que hoje te visitou. Não tenho razão? Como sabes fui eu que aconselhei a Dr.ª. Maria Clara e procurar a tua ajuda e tenho a certeza que ela mexeu contigo. Não tenhas medo de confessar, afinal és um homem livre, ou quase, não é verdade? Ao mesmo tempo, a investigação sobre o desaparecimento da rapariga, vai dar-te um pouco de trabalho e é disso que tu estás a precisar. O desaparecimento de Carolina Meneses não me parece um caso normal. Raptada por dinheiro não me parece, porque ainda não houve qualquer pedido de resgate. Levada para as redes de prostituição conhecidas, não creio. Rede de pedofilia também não, pois ela já é crescida para o gosto desses predadores. Além do mais a rapariga tinha uma vida muito certinha, boa aluna, os amigos ficaram também surpreendidos. Não lhe eram conhecidos namoricos, também não era frequentadora das redes sociais, segundo a Mãe declarou quando apresentou queixa. De facto a Carolina não se enquadra no tipo comum das pessoas que desaparecem e foi isso que me intrigou e me deu a ideia de que tu poderias seguir o caso, talvez explorando outros caminhos. Eu disse-o à Mãe e garanti-lhe que o assunto seria tratado com todo cuidado mas longe dos holofotes da Imprensa.”

            “- Sim eu percebo a tua posição, responde António, embora haja qualquer coisa que ainda não percebi bem. Mas voltaremos a falar. Para já a minha cabeça estala e ainda nem sequer comecei a pensar a sério do assunto.

            “- Mas é dum desafio que tu estás a precisar, respondeu o amigo. Pois, se nada fizeres, ainda acabas a ver e a seguir as telenovelas ou a comentar na TV, os crimes mais mediáticos, dizendo as banalidades do costume. Dorme bem e olha que eu gostarei de conhecer o desenvolvimento da tua investigação. Pela minha parte podes contar com a ajuda possível, dentro das regras é claro. Mas, toma nota, os contactos com a PJ serão só comigo.”

            “- Ok, fica combinado. Um abraço, adeus, terminou António já cansado de ouvir a conversa do amigo.”

            Arrumou a loiça do jantar ligeiro, acendeu um cigarro e foi para a varanda fumar. Olhava as luzes da noite na cidade, conseguia vislumbrar a cúpula iluminada da Basílica da Estrela, mais ao longe um pedaço da outra margem. Algures havia vida, havia tragédia, havia amor e também uma rapariga desaparecida. E no meio uma mulher interessante e misteriosa e um amigo que sorria.

           Deitou-se mas não conseguia dormir. Não lhe saíam da cabeça as palavras do amigo sobre o desaparecimento da rapariga. Mesmo que subtilmente, sentia que o telefonema tinha tido um propósito, orientar a investigação. Decididamente não percebia, havia qualquer coisa que se lhe escapava. Uma coisa sabia e que o perturbava. Não esquecera o olhar de Maria Clara que lhe tinha causado sentimentos tão desencontrados, como o desejo e o medo. Quanto mais pensava no assunto maior era a convicção que existia alguma ligação entre o amigo e Maria Clara. Seriam amantes ou cúmplices para esconder um segredo? E ele, teria sido escolhido como um amigo a quem se pede ajuda ou alguém de quem se espera segredo, discrição ou silêncio? A dúvida ficou sem resposta mas António não a esqueceria!

            Tentando afastar os seus pensamentos, levantou-se, foi para o escritório, abriu o computador portátil e iniciou a pesquisa de informação, sobre tráfico de mulheres. Havia muita, infelizmente, mas uma notícia em particular, despertou-lhe a atenção. Noticiava um jornal “online” britânico, que jovens que tinham sido recrutadas para trabalhar no Dubai, tinham desaparecido, sem que delas houvesse mais notícias. Já conhecia este negócio, mas os países de onde eram traficadas, eram sobretudo países do leste, e os destinos costumavam ser, as tendas dos senhores do deserto. Quando delas se fartavam, acabavam nas casas de prostituição do Cairo de Istambul ou de Beirute. O desaparecimento de Carolina não configurava aquele tráfico.

António lembrou-se de repente, que o seu primeiro caso também envolvera o desaparecimento de uma criança de tenra idade. O caso assumira contornos medonhos porque os raptores eram familiares próximos da criança. Quando incriminados confessaram mas não conseguiram, sequer, identificar os desconhecidos a quem haviam vendido a criança. Sentiu um arrepio como o que naquela altura sentira, e quase o haviam levado a pensar, fazer justiça pelas próprias mãos. Voltou para a cama, deu voltas sobre voltas e finalmente conseguiu adormecer, até que o despertador assinalou as sete horas da manhã.

            Sabia que iria ter um dia muito exigente e decidiu que precisaria de um bom pequeno-almoço. Foi o que comeu numa cafetaria do Bairro. Depois foi a pé para o escritório. Enquanto caminhava debaixo de uma chuva persistente, lembrou-se que tinha deixado o automóvel no parque de estacionamento do edifício do escritório. Não escondeu um riso amarelo pensando, ele a ficar encharcado e o automóvel convenientemente resguardado. Vá lá alguém perceber esta cabeça! Estava a arrumar alguns papéis, quando o telefone interno tocou. Sentiu que o mistério começara a fazer sentido. Mandou subir o visitante.

...

                                           

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  RECOMEÇAR

 

Foi com um ar preocupado que António Pedro voltou para a secretária, pegou no cartão-de-visita, simples mas de bom gosto. Profissão médica com consultório em Lisboa e residente em Cascais. Escrito, manualmente, no verso encontrou o número do telemóvel. Ligou para o antigo colega e amigo Inspetor Artur Marques, o telemóvel estava desligado e a sua chamada foi remetida para a caixa de correio. Não deixou mensagem. Esteve a percorrer sítios da Internet para se atualizar. Já não lia jornais há muito tempo e Televisão nem a ligava. Estava fora do mundo que o rodeava e precisava de voltar a saber o que acontecera em Portugal e no Mundo que pudesse ter algo a ver com o desaparecimento de crianças. Ficou admirado com a quantidade de informação sobre o assunto. Só na Europa a taxa de desaparecimento de pessoas jovens e crianças, era enorme e assustadora. Que mundo é este em que vivemos, perguntava-se?

            Ouviu o sinal de chegada de uma mensagem. Abriu era do Artur Martins e dizia:           - António, o que achaste do desaparecimento da filha da doutora Maria Clara? Precisamos de falar sobre o assunto, mas só estarei disponível à noite. Eu ligo-te. Artur.

            Espreitou pela janela, parecia ir chover. Vestiu o impermeável, fechou o gabinete e saiu para a rua. Como tantas vezes fizera começou a andar até ao Marquês, subiu a Fontes Pereira de Melo e dali seguiu para a Almirante Reis. Passou perto da Igreja dos Anjos, onde um significativo grupo de sem abrigo aguardava a sopa da noite. Nas ruas adjacentes, por entre os carros, vendia-se droga e grupos de dois ou três jovens, sentados no recanto da praça injetavam-se, com heroína ou qualquer outro produto manipulado. Relembrou com amargura aquele espetáculo. E o trabalho que lhe dera identificar e em muitos casos deter traficantes, que logo de seguida eram substituídos por outros. E o vício continuava a enriquecer muitos e a desgraçar mais ainda. Teria valido a pena, interrogou-se? Entrou num pequeno bar, mal iluminado, Escolheu um lugar na mesa perto da porta, sentou-se pediu um whisky. Havia pouca clientela e as duas ou três mulheres que faziam da noite a sua vida, estavam encostadas ao balcão esperando um possível cliente. Eram mulheres que já tinham aprendido a catalogar os homens. Elas conheciam os frequentadores habituais e o solitário sentado na mesa perto da entrada foi, imediatamente reconhecido como polícia. António Pedro esperava encontrar um rapaz que já era seu conhecido por pequenos furtos ligados ao vício da droga. E ele, o Carlos entrou no bar, percebeu por um sinal vindo de balcão que havia perigo. Mal entrou, deu alguns passos e rapidamente voltou atrás para fugir. Mas passou perto, pelo que a António Pedro não foi difícil agarrá-lo e com ele seguro por um braço, sair para a rua.

            “- Então Carlos o que é que fizeste para saíres com tanta pressa? Já não queres falar comigo?”

“- Oh senhor Inspetor, juro que não fiz nada de mal, respondeu o Carlos.”

“ – Mas eu sou teu amigo e preciso de falar contigo. Não tentes fugir, pois sabes que te apanho quando quiser e se fores a julgamento apanhas uma pena jeitosa.

“- Oh senhor Inspetor, o senhor sabe que eu nunca me meti em coisas grandes, e que o negócio é só para sobreviver. Tenha pena de mim e deixe-me ir embora.”

“- Olha Carlos, tu podes não acreditar, mas eu sempre pensei que bastava um pequeno esforço da tua parte, para largares esse mundo em que vives, e voltares a ser um rapaz normal. Vou por à prova esta minha teoria. Eu já não pertenço aos quadros da PJ, mas abri um pequeno escritório de investigações e irei precisar de informações. Pode ser uma oportunidade para ti. Amanhã vais ter comigo ao escritório, deu-lhe o cartão. Quero-te ver por volta das seis da tarde. Entretanto vai abrindo os olhos e presta atenção às conversas sobre os negócios da noite. Falo de tráfico de armas, de pessoas e de droga. Eu perdi essa informação, pois estive muito tempo afastado dessa área criminal. Tu vais ser meu colaborador, já nos conhecemos há muito tempo e sabes que te posso ajudar. “- Mas porque escolheu um solitário e independente como eu? No mundo da noite e dos negócios escuros não passo de um Zé-ninguém!”

           “- Não sejas modesto, tu tens algo que a maioria dos teus amigos não sabe sequer o que é. És inteligente, observador, e sabes guardar segredos. Essas características são adequadas para o que eu pretendo de ti. Em resumo, quero que oiças e vejas por mim, que faças perguntas e me contes as respostas. Mas tudo de forma informal. Nunca te porei em risco, podes confiar. Já uma vez me ajudaste e agora peço-te ajuda novamente. Vai, e não te esqueças, amanhã às seis da tarde. Toma lá algum dinheiro para te arranjares. Não me apareças com o aspeto desleixado. Faz por merecer esta oportunidade. Eu espero por ti e confio que lá estarás.

            Apanhou um táxi, deu-lhe o endereço e recostou-se no banco. Sem trânsito depressa chegou a casa. Entrou no apartamento desconfortável, e mais uma vez se esquecera de jantar. Procurou na dispensa, encontrou o saco das compras meio aberto, retirou um pacote de bolachas, um boião de compota e uma caixa de embalagens de chá, era o que iria ser a sua refeição. Comeu sem prazer, sentou-se, cerrou os olhos e começou a ver imagens que o perturbavam. Uma jovem sem rosto, a sombra de um homem e a figura duma mulher insinuante que lhe sorria. Sim a imagem da mulher que lhe sorria era da Maria Clara.

CRESPÚSCULO

                                               

 

 

 

                           A N G Ú S T I A

 

 

O COMEÇO DO ROMANCE

Foi com um ar preocupado que António Pedro voltou para a secretária, pegou no cartão-de-visita, simples mas de bom gosto. Profissão médica com consultório em Lisboa e residente em Cascais. Escrito, manualmente, no verso encontrou o número do telemóvel. Ligou para o antigo colega e amigo Inspetor Artur Marques, o telemóvel estava desligado e a sua chamada foi remetida para a caixa de correio. Não deixou mensagem. Esteve a percorrer sítios da Internet para se atualizar. Já não lia jornais há muito tempo e Televisão nem a ligava. Estava fora do mundo que o rodeava e precisava de voltar a saber o que acontecera em Portugal e no Mundo que pudesse ter algo a ver com o desaparecimento de crianças. Ficou admirado com a quantidade de informação sobre o assunto. Só na Europa a taxa de desaparecimento de pessoas jovens e crianças, era enorme e assustadora. Que mundo é este em que vivemos, perguntava-se?

            Ouviu o sinal de chegada de uma mensagem. Abriu era do Artur Martins e dizia:           - António, o que achaste do desaparecimento da filha da doutora Maria Clara? Precisamos de falar sobre o assunto, mas só estarei disponível à noite. Eu ligo-te. Artur.

            Espreitou pela janela, parecia ir chover. Vestiu o impermeável, fechou o gabinete e saiu para a rua. Como tantas vezes fizera começou a andar até ao Marquês, subiu a Fontes Pereira de Melo e dali seguiu para a Almirante Reis. Passou perto da Igreja dos Anjos, onde um significativo grupo de sem abrigo aguardava a sopa da noite. Nas ruas adjacentes, por entre os carros, vendia-se droga e grupos de dois ou três jovens, sentados no recanto da praça injetavam-se, com heroína ou qualquer outro produto manipulado. Relembrou com amargura aquele espetáculo. E o trabalho que lhe dera identificar e em muitos casos deter traficantes, que logo de seguida eram substituídos por outros. E o vício continuava a enriquecer muitos e a desgraçar mais ainda. Teria valido a pena, interrogou-se? Entrou num pequeno bar, mal iluminado, Escolheu um lugar na mesa perto da porta, sentou-se pediu um whisky. Havia pouca clientela e as duas ou três mulheres que faziam da noite a sua vida, estavam encostadas ao balcão esperando um possível cliente. Eram mulheres que já tinham aprendido a catalogar os homens. Elas conheciam os frequentadores habituais e o solitário sentado na mesa perto da entrada foi, imediatamente reconhecido como polícia. António Pedro esperava encontrar um rapaz que já era seu conhecido por pequenos furtos ligados ao vício da droga. E ele, o Carlos entrou no bar, percebeu por um sinal vindo de balcão que havia perigo. Mal entrou, deu alguns passos e rapidamente voltou atrás para fugir. Mas passou perto, pelo que a António Pedro não foi difícil agarrá-lo e com ele seguro por um braço, sair para a rua.

            “- Então Carlos o que é que fizeste para saíres com tanta pressa? Já não queres falar comigo?”

“- Oh senhor Inspetor, juro que não fiz nada de mal, respondeu o Carlos.”

“ – Mas eu sou teu amigo e preciso de falar contigo. Não tentes fugir, pois sabes que te apanho quando quiser e se fores a julgamento apanhas uma pena jeitosa.

“- Oh senhor Inspetor, o senhor sabe que eu nunca me meti em coisas grandes, e que o negócio é só para sobreviver. Tenha pena de mim e deixe-me ir embora.”

“- Olha Carlos, tu podes não acreditar, mas eu sempre pensei que bastava um pequeno esforço da tua parte, para largares esse mundo em que vives, e voltares a ser um rapaz normal. Vou por à prova esta minha teoria. Eu já não pertenço aos quadros da PJ, mas abri um pequeno escritório de investigações e irei precisar de informações. Pode ser uma oportunidade para ti. Amanhã vais ter comigo ao escritório, deu-lhe o cartão. Quero-te ver por volta das seis da tarde. Entretanto vai abrindo os olhos e presta atenção às conversas sobre os negócios da noite. Falo de tráfico de armas, de pessoas e de droga. Eu perdi essa informação, pois estive muito tempo afastado dessa área criminal. Tu vais ser meu colaborador, já nos conhecemos há muito tempo e sabes que te posso ajudar. “- Mas porque escolheu um solitário e independente como eu? No mundo da noite e dos negócios escuros não passo de um Zé-ninguém!”

           “- Não sejas modesto, tu tens algo que a maioria dos teus amigos não sabe sequer o que é. És inteligente, observador, e sabes guardar segredos. Essas características são adequadas para o que eu pretendo de ti. Em resumo, quero que oiças e vejas por mim, que faças perguntas e me contes as respostas. Mas tudo de forma informal. Nunca te porei em risco, podes confiar. Já uma vez me ajudaste e agora peço-te ajuda novamente. Vai, e não te esqueças, amanhã às seis da tarde. Toma lá algum dinheiro para te arranjares. Não me apareças com o aspeto desleixado. Faz por merecer esta oportunidade. Eu espero por ti e confio que lá estarás.

            Apanhou um táxi, deu-lhe o endereço e recostou-se no banco. Sem trânsito depressa chegou a casa. Entrou no apartamento desconfortável, e mais uma vez se esquecera de jantar. Procurou na dispensa, encontrou o saco das compras meio aberto, retirou um pacote de bolachas, um boião de compota e uma caixa de embalagens de chá, era o que iria ser a sua refeição. Comeu sem prazer, sentou-se, cerrou os olhos e começou a ver imagens que o perturbavam. Uma jovem sem rosto, a sombra de um homem e a figura duma mulher insinuante que lhe sorria. Sim a imagem da mulher que lhe sorria era da Maria Clara.

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