Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

barba cabelo e gemidos

barba cabelo e gemidos

...

                                           

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  RECOMEÇAR

 

Foi com um ar preocupado que António Pedro voltou para a secretária, pegou no cartão-de-visita, simples mas de bom gosto. Profissão médica com consultório em Lisboa e residente em Cascais. Escrito, manualmente, no verso encontrou o número do telemóvel. Ligou para o antigo colega e amigo Inspetor Artur Marques, o telemóvel estava desligado e a sua chamada foi remetida para a caixa de correio. Não deixou mensagem. Esteve a percorrer sítios da Internet para se atualizar. Já não lia jornais há muito tempo e Televisão nem a ligava. Estava fora do mundo que o rodeava e precisava de voltar a saber o que acontecera em Portugal e no Mundo que pudesse ter algo a ver com o desaparecimento de crianças. Ficou admirado com a quantidade de informação sobre o assunto. Só na Europa a taxa de desaparecimento de pessoas jovens e crianças, era enorme e assustadora. Que mundo é este em que vivemos, perguntava-se?

            Ouviu o sinal de chegada de uma mensagem. Abriu era do Artur Martins e dizia:           - António, o que achaste do desaparecimento da filha da doutora Maria Clara? Precisamos de falar sobre o assunto, mas só estarei disponível à noite. Eu ligo-te. Artur.

            Espreitou pela janela, parecia ir chover. Vestiu o impermeável, fechou o gabinete e saiu para a rua. Como tantas vezes fizera começou a andar até ao Marquês, subiu a Fontes Pereira de Melo e dali seguiu para a Almirante Reis. Passou perto da Igreja dos Anjos, onde um significativo grupo de sem abrigo aguardava a sopa da noite. Nas ruas adjacentes, por entre os carros, vendia-se droga e grupos de dois ou três jovens, sentados no recanto da praça injetavam-se, com heroína ou qualquer outro produto manipulado. Relembrou com amargura aquele espetáculo. E o trabalho que lhe dera identificar e em muitos casos deter traficantes, que logo de seguida eram substituídos por outros. E o vício continuava a enriquecer muitos e a desgraçar mais ainda. Teria valido a pena, interrogou-se? Entrou num pequeno bar, mal iluminado, Escolheu um lugar na mesa perto da porta, sentou-se pediu um whisky. Havia pouca clientela e as duas ou três mulheres que faziam da noite a sua vida, estavam encostadas ao balcão esperando um possível cliente. Eram mulheres que já tinham aprendido a catalogar os homens. Elas conheciam os frequentadores habituais e o solitário sentado na mesa perto da entrada foi, imediatamente reconhecido como polícia. António Pedro esperava encontrar um rapaz que já era seu conhecido por pequenos furtos ligados ao vício da droga. E ele, o Carlos entrou no bar, percebeu por um sinal vindo de balcão que havia perigo. Mal entrou, deu alguns passos e rapidamente voltou atrás para fugir. Mas passou perto, pelo que a António Pedro não foi difícil agarrá-lo e com ele seguro por um braço, sair para a rua.

            “- Então Carlos o que é que fizeste para saíres com tanta pressa? Já não queres falar comigo?”

“- Oh senhor Inspetor, juro que não fiz nada de mal, respondeu o Carlos.”

“ – Mas eu sou teu amigo e preciso de falar contigo. Não tentes fugir, pois sabes que te apanho quando quiser e se fores a julgamento apanhas uma pena jeitosa.

“- Oh senhor Inspetor, o senhor sabe que eu nunca me meti em coisas grandes, e que o negócio é só para sobreviver. Tenha pena de mim e deixe-me ir embora.”

“- Olha Carlos, tu podes não acreditar, mas eu sempre pensei que bastava um pequeno esforço da tua parte, para largares esse mundo em que vives, e voltares a ser um rapaz normal. Vou por à prova esta minha teoria. Eu já não pertenço aos quadros da PJ, mas abri um pequeno escritório de investigações e irei precisar de informações. Pode ser uma oportunidade para ti. Amanhã vais ter comigo ao escritório, deu-lhe o cartão. Quero-te ver por volta das seis da tarde. Entretanto vai abrindo os olhos e presta atenção às conversas sobre os negócios da noite. Falo de tráfico de armas, de pessoas e de droga. Eu perdi essa informação, pois estive muito tempo afastado dessa área criminal. Tu vais ser meu colaborador, já nos conhecemos há muito tempo e sabes que te posso ajudar. “- Mas porque escolheu um solitário e independente como eu? No mundo da noite e dos negócios escuros não passo de um Zé-ninguém!”

           “- Não sejas modesto, tu tens algo que a maioria dos teus amigos não sabe sequer o que é. És inteligente, observador, e sabes guardar segredos. Essas características são adequadas para o que eu pretendo de ti. Em resumo, quero que oiças e vejas por mim, que faças perguntas e me contes as respostas. Mas tudo de forma informal. Nunca te porei em risco, podes confiar. Já uma vez me ajudaste e agora peço-te ajuda novamente. Vai, e não te esqueças, amanhã às seis da tarde. Toma lá algum dinheiro para te arranjares. Não me apareças com o aspeto desleixado. Faz por merecer esta oportunidade. Eu espero por ti e confio que lá estarás.

            Apanhou um táxi, deu-lhe o endereço e recostou-se no banco. Sem trânsito depressa chegou a casa. Entrou no apartamento desconfortável, e mais uma vez se esquecera de jantar. Procurou na dispensa, encontrou o saco das compras meio aberto, retirou um pacote de bolachas, um boião de compota e uma caixa de embalagens de chá, era o que iria ser a sua refeição. Comeu sem prazer, sentou-se, cerrou os olhos e começou a ver imagens que o perturbavam. Uma jovem sem rosto, a sombra de um homem e a figura duma mulher insinuante que lhe sorria. Sim a imagem da mulher que lhe sorria era da Maria Clara.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D