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barba cabelo e gemidos

barba cabelo e gemidos

CRESPÚSCULO

 

 

 

 

 

 

O 3º HOMEM

Sabia que iria ter um dia muito exigente e decidiu que precisaria de um bom pequeno-almoço. Foi o que comeu numa cafetaria do Bairro. Depois foi a pé para o escritório. Enquanto caminhava debaixo de uma chuva persistente, lembrou-se que tinha deixado o automóvel no parque de estacionamento que lhe coubera quando arrendara o escritório.

Entrou e ainda não se sentara e já o telefone tocava. A telefonista perguntava se podia mandar subir um cavalheiro que se encontrava muito inquieto e agitado e insistia em falar com ele. Como não tinha nada agendado para a manhã, deu ordens para subir. Abriu a porta do escritório e mandou entrar o homem impaciente. Era um jovem, da casa dos trinta anos, com aspeto muito cuidado, com uma boa figura a lembrar os galãs de telenovela. Mal se deixou cair na cadeira começou imediatamente a falar:

            “- Tenho uma vida muito ocupada e não posso perder tempo com conversa inútil, diz o desconhecido. Quero que me diga, que mentiras a Maria Clara lhe veio contar, ontem à tarde. Não negue, porque ela própria me disse, que esteve consigo.”

            “- Meu caro amigo, os assuntos que trato com os meus clientes são confidenciais. Se tem algo para contar relacionado com o caso faça-o, de contrário a porta de saída é aquela por onde entrou.

            “- Fique sabendo que eu não receio um detetive de meia tigela, por isso a sua observação não me afeta. Aviso-o, para seu bem, não deve meter-se em assuntos para onde não é chamado, pode dar-se mal. Ainda lhe digo mais, qualquer coisa que a Maria Clara lhe tenha contado, não passa de uma invenção.

            “- Repare bem como eu estou a tremer, deve ser das suas ameaças, responde António. Levantou-se da cadeira aproximou-se do desconhecido, pegou-lhe pela gravata, levou-o à saída e em jeito de despedida, segredou-lhe ao ouvido: - Já tratei com homens violentos, criminosos e assassinos e nunca tive medo. Achas que um idiota qualquer armado em esperto me vai assustar? Ponha-se no meio da rua, antes que o corra a pontapé, mas olha bem para mim, penso que ainda nos vamos encontrar. Mas será quando eu quiser. Resmungando o desconhecido abriu a porta do elevador e saiu.

            Sentado à secretária António procurava esquematizar as ligações entre Maria Clara, o Artur e agora um gigolo profissional. Tinha a certeza que o desaparecimento da rapariga fora motivado pela recusa em compreender as relações amorosas da Mãe ou fora um desaparecimento calculado para a obtenção de proveitos financeiros para o grupo.

Não tinha dúvidas. Maria Clara mentira.

Saiu para passear, era hora de almoço mas não tinha fome. Sentia que estaria a ser peça de mentira. Voltou ao trabalho pois queria preparar a entrevista marcada para as duas da tarde. Passavam poucos minutos, quando a rececionista ligou, avisando da chegada da cliente. Deixou tocar por duas ou três vezes a campainha do gabinete, velha técnica para enervar a outra parte. Maria Clara entrou, cumprimentou com um aperto de mão, e sentando-se na cadeira de braços, que o investigador lhe apontou, cruzou as pernas num movimento amplo e sugestivo

            -“. Aqui estou eu Doutor, como tínhamos combinado trago o questionário preenchido, e este envelope, com meia dúzia de fotos, recentes, da minha filha.”

António Pedro recebeu os documentos, colocou-os na secretária. Depois fixando a cliente sugeriu-lhe que tirasse os óculos escuros, pois gostava de ver os olhos com quem falava. Desculpará, mas é um hábito que não perdi. Os olhos podem dar respostas diferentes das palavras.

Maria Clara hesitou e pediu para continuar com os óculos.” Sabe, sinto-me mais à vontade, porque não tive tempo, nem disposição, para me maquilhar.” António encolheu os ombros, e abriu o envelope das fotos que espalhou na secretária.

Enquanto olhava as fotos de Carolina, uma jovem bonita, loira, cabelo caído sobre os ombros mas sempre de semblante fechado, sem um sorriso, António Pedro não conseguia esconder que se deixara envolver numa história que já não dominava. Sentia-se a caminhar sobre uma fina aresta que um sopro o poderia derrubar. Ele sabia que estava a ser seduzido e pior, começava a gostar.

 

 

CRESPÚSCULO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                               O ESQUEMA

 

O telefone tocou, olhou no mostrador e reconheceu o número que chamava. Ouviu o amigo Artur dizer com ironia:

            “- Olá seu preguiçoso, isso são horas de um homem sozinho estar em casa e aposto que de pantufas? Não devias andar na conquista?”

            “- Sabes Artur, nunca pensei que uma vida sem obrigações fosse tão difícil de suportar. Estou cansado e nem me apetece sair de casa nem ao menos para tomar um copo.”

            “- Sim eu compreendo e porque nos conhecemos bem sei que uns olhos de mulher te podem devolver o prazer de viver. Principalmente os olhos de uma certa mulher que hoje te visitou. Não tenho razão? Como sabes fui eu que aconselhei a Dr.ª. Maria Clara e procurar a tua ajuda e tenho a certeza que ela mexeu contigo. Não tenhas medo de confessar, afinal és um homem livre, ou quase, não é verdade? Ao mesmo tempo, a investigação sobre o desaparecimento da rapariga, vai dar-te um pouco de trabalho e é disso que tu estás a precisar. O desaparecimento de Carolina Meneses não me parece um caso normal. Raptada por dinheiro não me parece, porque ainda não houve qualquer pedido de resgate. Levada para as redes de prostituição conhecidas, não creio. Rede de pedofilia também não, pois ela já é crescida para o gosto desses predadores. Além do mais a rapariga tinha uma vida muito certinha, boa aluna, os amigos ficaram também surpreendidos. Não lhe eram conhecidos namoricos, também não era frequentadora das redes sociais, segundo a Mãe declarou quando apresentou queixa. De facto a Carolina não se enquadra no tipo comum das pessoas que desaparecem e foi isso que me intrigou e me deu a ideia de que tu poderias seguir o caso, talvez explorando outros caminhos. Eu disse-o à Mãe e garanti-lhe que o assunto seria tratado com todo cuidado mas longe dos holofotes da Imprensa.”

            “- Sim eu percebo a tua posição, responde António, embora haja qualquer coisa que ainda não percebi bem. Mas voltaremos a falar. Para já a minha cabeça estala e ainda nem sequer comecei a pensar a sério do assunto.

            “- Mas é dum desafio que tu estás a precisar, respondeu o amigo. Pois, se nada fizeres, ainda acabas a ver e a seguir as telenovelas ou a comentar na TV, os crimes mais mediáticos, dizendo as banalidades do costume. Dorme bem e olha que eu gostarei de conhecer o desenvolvimento da tua investigação. Pela minha parte podes contar com a ajuda possível, dentro das regras é claro. Mas, toma nota, os contactos com a PJ serão só comigo.”

            “- Ok, fica combinado. Um abraço, adeus, terminou António já cansado de ouvir a conversa do amigo.”

            Arrumou a loiça do jantar ligeiro, acendeu um cigarro e foi para a varanda fumar. Olhava as luzes da noite na cidade, conseguia vislumbrar a cúpula iluminada da Basílica da Estrela, mais ao longe um pedaço da outra margem. Algures havia vida, havia tragédia, havia amor e também uma rapariga desaparecida. E no meio uma mulher interessante e misteriosa e um amigo que sorria.

           Deitou-se mas não conseguia dormir. Não lhe saíam da cabeça as palavras do amigo sobre o desaparecimento da rapariga. Mesmo que subtilmente, sentia que o telefonema tinha tido um propósito, orientar a investigação. Decididamente não percebia, havia qualquer coisa que se lhe escapava. Uma coisa sabia e que o perturbava. Não esquecera o olhar de Maria Clara que lhe tinha causado sentimentos tão desencontrados, como o desejo e o medo. Quanto mais pensava no assunto maior era a convicção que existia alguma ligação entre o amigo e Maria Clara. Seriam amantes ou cúmplices para esconder um segredo? E ele, teria sido escolhido como um amigo a quem se pede ajuda ou alguém de quem se espera segredo, discrição ou silêncio? A dúvida ficou sem resposta mas António não a esqueceria!

            Tentando afastar os seus pensamentos, levantou-se, foi para o escritório, abriu o computador portátil e iniciou a pesquisa de informação, sobre tráfico de mulheres. Havia muita, infelizmente, mas uma notícia em particular, despertou-lhe a atenção. Noticiava um jornal “online” britânico, que jovens que tinham sido recrutadas para trabalhar no Dubai, tinham desaparecido, sem que delas houvesse mais notícias. Já conhecia este negócio, mas os países de onde eram traficadas, eram sobretudo países do leste, e os destinos costumavam ser, as tendas dos senhores do deserto. Quando delas se fartavam, acabavam nas casas de prostituição do Cairo de Istambul ou de Beirute. O desaparecimento de Carolina não configurava aquele tráfico.

António lembrou-se de repente, que o seu primeiro caso também envolvera o desaparecimento de uma criança de tenra idade. O caso assumira contornos medonhos porque os raptores eram familiares próximos da criança. Quando incriminados confessaram mas não conseguiram, sequer, identificar os desconhecidos a quem haviam vendido a criança. Sentiu um arrepio como o que naquela altura sentira, e quase o haviam levado a pensar, fazer justiça pelas próprias mãos. Voltou para a cama, deu voltas sobre voltas e finalmente conseguiu adormecer, até que o despertador assinalou as sete horas da manhã.

            Sabia que iria ter um dia muito exigente e decidiu que precisaria de um bom pequeno-almoço. Foi o que comeu numa cafetaria do Bairro. Depois foi a pé para o escritório. Enquanto caminhava debaixo de uma chuva persistente, lembrou-se que tinha deixado o automóvel no parque de estacionamento do edifício do escritório. Não escondeu um riso amarelo pensando, ele a ficar encharcado e o automóvel convenientemente resguardado. Vá lá alguém perceber esta cabeça! Estava a arrumar alguns papéis, quando o telefone interno tocou. Sentiu que o mistério começara a fazer sentido. Mandou subir o visitante.

...

                                           

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  RECOMEÇAR

 

Foi com um ar preocupado que António Pedro voltou para a secretária, pegou no cartão-de-visita, simples mas de bom gosto. Profissão médica com consultório em Lisboa e residente em Cascais. Escrito, manualmente, no verso encontrou o número do telemóvel. Ligou para o antigo colega e amigo Inspetor Artur Marques, o telemóvel estava desligado e a sua chamada foi remetida para a caixa de correio. Não deixou mensagem. Esteve a percorrer sítios da Internet para se atualizar. Já não lia jornais há muito tempo e Televisão nem a ligava. Estava fora do mundo que o rodeava e precisava de voltar a saber o que acontecera em Portugal e no Mundo que pudesse ter algo a ver com o desaparecimento de crianças. Ficou admirado com a quantidade de informação sobre o assunto. Só na Europa a taxa de desaparecimento de pessoas jovens e crianças, era enorme e assustadora. Que mundo é este em que vivemos, perguntava-se?

            Ouviu o sinal de chegada de uma mensagem. Abriu era do Artur Martins e dizia:           - António, o que achaste do desaparecimento da filha da doutora Maria Clara? Precisamos de falar sobre o assunto, mas só estarei disponível à noite. Eu ligo-te. Artur.

            Espreitou pela janela, parecia ir chover. Vestiu o impermeável, fechou o gabinete e saiu para a rua. Como tantas vezes fizera começou a andar até ao Marquês, subiu a Fontes Pereira de Melo e dali seguiu para a Almirante Reis. Passou perto da Igreja dos Anjos, onde um significativo grupo de sem abrigo aguardava a sopa da noite. Nas ruas adjacentes, por entre os carros, vendia-se droga e grupos de dois ou três jovens, sentados no recanto da praça injetavam-se, com heroína ou qualquer outro produto manipulado. Relembrou com amargura aquele espetáculo. E o trabalho que lhe dera identificar e em muitos casos deter traficantes, que logo de seguida eram substituídos por outros. E o vício continuava a enriquecer muitos e a desgraçar mais ainda. Teria valido a pena, interrogou-se? Entrou num pequeno bar, mal iluminado, Escolheu um lugar na mesa perto da porta, sentou-se pediu um whisky. Havia pouca clientela e as duas ou três mulheres que faziam da noite a sua vida, estavam encostadas ao balcão esperando um possível cliente. Eram mulheres que já tinham aprendido a catalogar os homens. Elas conheciam os frequentadores habituais e o solitário sentado na mesa perto da entrada foi, imediatamente reconhecido como polícia. António Pedro esperava encontrar um rapaz que já era seu conhecido por pequenos furtos ligados ao vício da droga. E ele, o Carlos entrou no bar, percebeu por um sinal vindo de balcão que havia perigo. Mal entrou, deu alguns passos e rapidamente voltou atrás para fugir. Mas passou perto, pelo que a António Pedro não foi difícil agarrá-lo e com ele seguro por um braço, sair para a rua.

            “- Então Carlos o que é que fizeste para saíres com tanta pressa? Já não queres falar comigo?”

“- Oh senhor Inspetor, juro que não fiz nada de mal, respondeu o Carlos.”

“ – Mas eu sou teu amigo e preciso de falar contigo. Não tentes fugir, pois sabes que te apanho quando quiser e se fores a julgamento apanhas uma pena jeitosa.

“- Oh senhor Inspetor, o senhor sabe que eu nunca me meti em coisas grandes, e que o negócio é só para sobreviver. Tenha pena de mim e deixe-me ir embora.”

“- Olha Carlos, tu podes não acreditar, mas eu sempre pensei que bastava um pequeno esforço da tua parte, para largares esse mundo em que vives, e voltares a ser um rapaz normal. Vou por à prova esta minha teoria. Eu já não pertenço aos quadros da PJ, mas abri um pequeno escritório de investigações e irei precisar de informações. Pode ser uma oportunidade para ti. Amanhã vais ter comigo ao escritório, deu-lhe o cartão. Quero-te ver por volta das seis da tarde. Entretanto vai abrindo os olhos e presta atenção às conversas sobre os negócios da noite. Falo de tráfico de armas, de pessoas e de droga. Eu perdi essa informação, pois estive muito tempo afastado dessa área criminal. Tu vais ser meu colaborador, já nos conhecemos há muito tempo e sabes que te posso ajudar. “- Mas porque escolheu um solitário e independente como eu? No mundo da noite e dos negócios escuros não passo de um Zé-ninguém!”

           “- Não sejas modesto, tu tens algo que a maioria dos teus amigos não sabe sequer o que é. És inteligente, observador, e sabes guardar segredos. Essas características são adequadas para o que eu pretendo de ti. Em resumo, quero que oiças e vejas por mim, que faças perguntas e me contes as respostas. Mas tudo de forma informal. Nunca te porei em risco, podes confiar. Já uma vez me ajudaste e agora peço-te ajuda novamente. Vai, e não te esqueças, amanhã às seis da tarde. Toma lá algum dinheiro para te arranjares. Não me apareças com o aspeto desleixado. Faz por merecer esta oportunidade. Eu espero por ti e confio que lá estarás.

            Apanhou um táxi, deu-lhe o endereço e recostou-se no banco. Sem trânsito depressa chegou a casa. Entrou no apartamento desconfortável, e mais uma vez se esquecera de jantar. Procurou na dispensa, encontrou o saco das compras meio aberto, retirou um pacote de bolachas, um boião de compota e uma caixa de embalagens de chá, era o que iria ser a sua refeição. Comeu sem prazer, sentou-se, cerrou os olhos e começou a ver imagens que o perturbavam. Uma jovem sem rosto, a sombra de um homem e a figura duma mulher insinuante que lhe sorria. Sim a imagem da mulher que lhe sorria era da Maria Clara.

CRESPÚSCULO

                                               

 

 

 

                           A N G Ú S T I A

 

 

O COMEÇO DO ROMANCE

Foi com um ar preocupado que António Pedro voltou para a secretária, pegou no cartão-de-visita, simples mas de bom gosto. Profissão médica com consultório em Lisboa e residente em Cascais. Escrito, manualmente, no verso encontrou o número do telemóvel. Ligou para o antigo colega e amigo Inspetor Artur Marques, o telemóvel estava desligado e a sua chamada foi remetida para a caixa de correio. Não deixou mensagem. Esteve a percorrer sítios da Internet para se atualizar. Já não lia jornais há muito tempo e Televisão nem a ligava. Estava fora do mundo que o rodeava e precisava de voltar a saber o que acontecera em Portugal e no Mundo que pudesse ter algo a ver com o desaparecimento de crianças. Ficou admirado com a quantidade de informação sobre o assunto. Só na Europa a taxa de desaparecimento de pessoas jovens e crianças, era enorme e assustadora. Que mundo é este em que vivemos, perguntava-se?

            Ouviu o sinal de chegada de uma mensagem. Abriu era do Artur Martins e dizia:           - António, o que achaste do desaparecimento da filha da doutora Maria Clara? Precisamos de falar sobre o assunto, mas só estarei disponível à noite. Eu ligo-te. Artur.

            Espreitou pela janela, parecia ir chover. Vestiu o impermeável, fechou o gabinete e saiu para a rua. Como tantas vezes fizera começou a andar até ao Marquês, subiu a Fontes Pereira de Melo e dali seguiu para a Almirante Reis. Passou perto da Igreja dos Anjos, onde um significativo grupo de sem abrigo aguardava a sopa da noite. Nas ruas adjacentes, por entre os carros, vendia-se droga e grupos de dois ou três jovens, sentados no recanto da praça injetavam-se, com heroína ou qualquer outro produto manipulado. Relembrou com amargura aquele espetáculo. E o trabalho que lhe dera identificar e em muitos casos deter traficantes, que logo de seguida eram substituídos por outros. E o vício continuava a enriquecer muitos e a desgraçar mais ainda. Teria valido a pena, interrogou-se? Entrou num pequeno bar, mal iluminado, Escolheu um lugar na mesa perto da porta, sentou-se pediu um whisky. Havia pouca clientela e as duas ou três mulheres que faziam da noite a sua vida, estavam encostadas ao balcão esperando um possível cliente. Eram mulheres que já tinham aprendido a catalogar os homens. Elas conheciam os frequentadores habituais e o solitário sentado na mesa perto da entrada foi, imediatamente reconhecido como polícia. António Pedro esperava encontrar um rapaz que já era seu conhecido por pequenos furtos ligados ao vício da droga. E ele, o Carlos entrou no bar, percebeu por um sinal vindo de balcão que havia perigo. Mal entrou, deu alguns passos e rapidamente voltou atrás para fugir. Mas passou perto, pelo que a António Pedro não foi difícil agarrá-lo e com ele seguro por um braço, sair para a rua.

            “- Então Carlos o que é que fizeste para saíres com tanta pressa? Já não queres falar comigo?”

“- Oh senhor Inspetor, juro que não fiz nada de mal, respondeu o Carlos.”

“ – Mas eu sou teu amigo e preciso de falar contigo. Não tentes fugir, pois sabes que te apanho quando quiser e se fores a julgamento apanhas uma pena jeitosa.

“- Oh senhor Inspetor, o senhor sabe que eu nunca me meti em coisas grandes, e que o negócio é só para sobreviver. Tenha pena de mim e deixe-me ir embora.”

“- Olha Carlos, tu podes não acreditar, mas eu sempre pensei que bastava um pequeno esforço da tua parte, para largares esse mundo em que vives, e voltares a ser um rapaz normal. Vou por à prova esta minha teoria. Eu já não pertenço aos quadros da PJ, mas abri um pequeno escritório de investigações e irei precisar de informações. Pode ser uma oportunidade para ti. Amanhã vais ter comigo ao escritório, deu-lhe o cartão. Quero-te ver por volta das seis da tarde. Entretanto vai abrindo os olhos e presta atenção às conversas sobre os negócios da noite. Falo de tráfico de armas, de pessoas e de droga. Eu perdi essa informação, pois estive muito tempo afastado dessa área criminal. Tu vais ser meu colaborador, já nos conhecemos há muito tempo e sabes que te posso ajudar. “- Mas porque escolheu um solitário e independente como eu? No mundo da noite e dos negócios escuros não passo de um Zé-ninguém!”

           “- Não sejas modesto, tu tens algo que a maioria dos teus amigos não sabe sequer o que é. És inteligente, observador, e sabes guardar segredos. Essas características são adequadas para o que eu pretendo de ti. Em resumo, quero que oiças e vejas por mim, que faças perguntas e me contes as respostas. Mas tudo de forma informal. Nunca te porei em risco, podes confiar. Já uma vez me ajudaste e agora peço-te ajuda novamente. Vai, e não te esqueças, amanhã às seis da tarde. Toma lá algum dinheiro para te arranjares. Não me apareças com o aspeto desleixado. Faz por merecer esta oportunidade. Eu espero por ti e confio que lá estarás.

            Apanhou um táxi, deu-lhe o endereço e recostou-se no banco. Sem trânsito depressa chegou a casa. Entrou no apartamento desconfortável, e mais uma vez se esquecera de jantar. Procurou na dispensa, encontrou o saco das compras meio aberto, retirou um pacote de bolachas, um boião de compota e uma caixa de embalagens de chá, era o que iria ser a sua refeição. Comeu sem prazer, sentou-se, cerrou os olhos e começou a ver imagens que o perturbavam. Uma jovem sem rosto, a sombra de um homem e a figura duma mulher insinuante que lhe sorria. Sim a imagem da mulher que lhe sorria era da Maria Clara.

CRESPÚCULO

                                          

 

                                      

 

  A N G Ú S T I A

 

UM CERTO SORRISO

Um dia, o telefone interno tocou e do outro lado a rececionista perguntou:

“- Tenho aqui à entrada uma senhora que lhe pretende falar. Não tem contudo hora marcada e não existe registo de chamada prévia. O Senhor Doutor pode recebê-la?”

Hesitou, algum caso de divórcio quase de certeza, o que não lhe agradaria mesmo nada. Mas era a primeira pessoa que o procurava e esse facto despertou-lhe o interesse alimentando a secreta esperança de encontrar um caso interessante. Respondeu sim.

- “Pode subir ao 5º. Andar letra C, o Doutor António Pedro, espera-a minha senhora, informou a rececionista.”

António Pedro retomou o seu hábito, ajeitou o nó da gravata, vestiu o casaco, mirou-se ao espelho e gostou de se ver, e abriu a porta de acesso ao gabinete. A mulher que entrou era atraente, alta, cabelo negro, como os olhos, elegantemente vestida, não passaria despercebida em qualquer lugar. Andaria na casa dos trinta e cinco anos calculou enquanto a ajudou a tirar o casaco, que colocou dobrado nas costas de uma cadeira. Acompanhou a senhora até à poltrona de braços, colocada em frente da secretária e convidou-a a sentar.

            - “Então, em que lhe posso ser útil, perguntou?”

            - Doutor desculpe ter vindo sem marcação, mas o seu nome foi-me sugerido pelo Inspetor Marques da PJ, como sendo a pessoa certa para me ajudar. O meu nome é Maria Clara Figueiredo de Meneses, estou muito preocupada com o desaparecimento da minha filha de 12 anos. E por isso aqui estou, para contratar os seus serviços, quero encontrar a minha filha. António Pedro sentiu alguma frustração. Depositara esperanças num processo apelativo, e afinal era, apenas, um caso de desaparecimento de uma menor. Com aquela idade o costume era de fuga com o namorado ou o receio de comunicar algo que a embaraçasse, fosse sobre o aproveitamento escolar ou algum problema típico duma adolescente. Por momentos pensou recusar. Mas qualquer coisa no olhar da mulher sentada na sua frente fê-lo estremecer e tomou a decisão de continuar. Aqueles olhos negros, profundos, desvendaram-lhe a alma. Ele sentiu que o iriam fazer esquecer o passado recente.

Com um ar distante, António Pedro foi dizendo que a PJ, tinha um excelente departamento especializado para tratar estes casos, tem tido muito sucesso e, além do mais, tem também os meios necessários e a experiência para investigar esse tipo de situações. Eu pelo contrário não sou experiente nessa área da investigação. Maria Clara argumentou que a PJ tinha sido o seu primeiro caminho. Dera todas as informações que lhe pediram e o processo fora aberto. Mas, dizia recear que, apesar da reconhecida competência do Departamento, o caso da filha fosse mais um. Por outro lado, vim ter consigo recomendada por um amigo e antigo colega, porque o senhor tem uma grande vantagem, tem tempo e uma reconhecida sensibilidade e eu ficaria mais tranquila se o desaparecimento da minha filha for investigado de perto, quase me atrevo a dizer em regime de exclusividade. E estou disposta a pagar por isso. Peço não me desiluda, eu acredito que o senhor vai conseguir trazer de volta a minha filha.

            Ficaram um momento em silêncio. O apelo de Maria Clara tinha sido feito de forma veemente e nervosa, mas António Pedro não vislumbrara no olhar angústia e dor. Era estranho, pensava, não lhe parecera que a visitante, fosse assim tão capaz de esconder sentimentos tão naturais. Prolongou o silêncio, olhando fixamente o rosto da senhora, como se quisesse captar qualquer sinal que o levasse a recusar. Foi com um frémito que desconfiou, que o caso não era apenas o desaparecimento da jovem, e isso fê-lo mudar de ideias. Sentira algum desconforto, como se alguém o estivesse a empurrar para um lado negro. Alguém que sabia que só assim ele aceitaria o desafio. Fora certamente o amigo, mas não entendia o porquê.

Levantou-se da secretária, andou alguns passos de um lado para o outro, parou em frente da cliente, olhou-a nos olhos e disse:

“- Minha senhora, estou disposto a aceitar o seu caso mas terá de confiar, absolutamente, em mim. Isso significa, dar-me todas as informações que eu lhe pedir, mesmo se elas lhe parecerem deslocadas ou até demasiado íntimas. Vou precisar de a conhecer, saber o seu agregado familiar, conhecer o que pensa o Pai da criança, como é a rotina do vosso dia-a-dia, onde passam férias, com quem costumam conviver, amigos, etc. Aceitarei investigar o caso que me traz, mas quero que fique bem claro, não vou ser simpático e se a conclusão, se a ela chegar, for uma imensa dor, mesmo assim eu não deixarei de a assinalar. Se estiver de acordo, preencha agora ou entregue-me depois, o questionário que aqui tem, e estendeu-lhe uma folha A 4, e junte uma série de fotos da sua filha, sozinha ou em grupo, que tenham sido tiradas nos dois últimos anos. Quanto ao pagamento dos meus serviços falaremos mais tarde. Não antevejo custos extraordinários.

Maria Clara, aceitou as regras sem levantar qualquer obstáculo, dizendo apenas que não gostaria de ver a fotografia da filha, nos ecrãs da Televisão ou nas primeiras páginas dos jornais. Compreenda o meu desejo de privacidade.

Pareceu-lhe razoável e tranquilizou-a.

Concentre-se no fundamental, tente encontrar qualquer coisa a que não tenha prestado atenção e que poderia ter originado a que a sua filha perdesse a confiança e fugisse. Às vezes há um pequeno sinal e isso pode ser a diferença entre o sucesso ou o insucesso. Mas pense bem, não me esconda nada. Aqui tem o meu cartão com os números de telefone e o endereço de correio eletrónico. Esteja à vontade para me contactar se algo lhe ocorrer. Amanhã, pelas 14 horas gostaria de a receber, e comentar os dados do questionário que lhe entreguei. Esperarei por si. Entretanto deixe-me por favor um cartão com o nome e endereço.

Acompanhou a cliente à porta, despediu-se com um aperto de mão que lhe pareceu algo estranho. Os olhos de Maria Clara estavam brilhantes e ele sentiu um fluxo de sangue que lhe percorreu as veias. Tremeu seria surpresa, fascínio ou medo?

 

CRESPÚSCULO

                                         A N G U S T I A

 

                                      ESTRELA DA TARDE

 

Nascera e fora criado no Bairro de Campo de Ourique e com a morte dos Pais optou por ocupar a casa que fora dos seus Pais e que, agora estavia vazia. Foi a pé percorrendo a rua que não bem conhecia. Pouca gente, o Bairro tinha uma população envelhecida que se resguardava da noite. Caminhava lembrando os cafés que já não existiam, as lojas entretanto fechadas, o jardim sem jovens. Conhecia a noite na cidade, mas a outra noite, a dos perigos, dos desencontros, da miséria e do abandono. Mas agora no silêncio das ruas que ia percorrendo até casa, sentia uma nova noite, tão calma que lhe apetecia abraçar. A casa era confortável mas tão vazia que se tornava fria. Faltava calor humano.

 Lembrou:

            “Apenas por orgulho, não fora capaz de reconhecer o equívoco, que a sua vaidade masculina alimentara, que mais não fora que uma relação platónica mal resolvida. Não dera qualquer explicação quanto Filomena o confrontou e pior, sentira-se o ofendido. Cometera o primeiro erro, reconhecia. Afinal teria sido fácil justificar que fora um momento platónico, mas não foi capaz. Arrumara meia dúzia de objetos pessoais, enchera uma mala de roupa, empacotou a papelada solta e saiu de casa, instalando-se no apartamento onde agora estava. Na realidade confiava que a sua situação, fruto de uma birra, em breve voltaria à normalidade. Acreditara nisso, mas não dera o primeiro passo. Filomena não tardaria a telefonar para o convidar a regressar, foi a ideia que sempre dominou os dias tristes. Cometera um segundo erro. Filomena não fez o gesto que ele esperava.

            Para sua surpresa, a mulher, que exercia advocacia num escritório de prestígio, decidira também, abandonar a casa comum e ir viver para casa dos Pais. Ele não tinha família próxima. Ficou só. Abdicou um pouco do seu orgulho e conseguiu que a mulher se encontrasse com ele, ocasionalmente, mas nunca manifestando o desejo, verdadeiro, de reatar a vida em comum. Nos encontros esporádicos, falavam como dois amigos, evitando o que os separara. Julgara que pouco a pouco, a situação iria ficar esquecida. Todavia, subestimara o carácter da mulher. O que mais lhe custava era que ele amava Filomena e sentia-lhe a falta, mas teimava em não o confessar e era demasiado orgulhoso para pedir perdão. Quando Filomena, a meio de uma conversa inócua, e perante o enfado com que ele a ouvia falar do seu trabalho, lhe perguntou, num repente, se ele queria o divórcio, estremeceu e respondeu negativamente. Mas aquela simples pergunta, causara-lhe um estranho mal-estar. Ela já teria outra relação, concluíra roído de ciúmes.”

            Optou por fumar mais um cigarro, abrindo a janela da sala para deixar entrar a aragem fresca que se sentia. Mas a dor de cabeça não desapareceu. Nos primeiros momentos da sua nova situação, António Pedro confortara-se, pensando nas vantagens que poderia obter, sendo um homem liberto de compromissos. Queria viajar por África, mas Filomena era muito citadina e dissera sempre não, optando pela Itália a França e, sobretudo Nova Iorque. Agora só e sem nada que o impedisse, teria a oportunidade de cumprir esse sonho, mas o desejo depressa seria esquecido na preguiça e na desilusão de cada dia que passava. Ao deixar um trabalho muito intenso e absorvente, teria tempo para escrever as memórias e ler os livros que se amontoavam no escritório. Rejubilava com isso, contudo nada fizera.

            A separação fora um erro. Ele sofria mais quando encontrava a Mulher e a via mais alegre. Ela sempre se cuidara e tinha muito gosto na forma com que se vestia. E continuava assim. Ele, por sua vez, apesar de vaidoso, sempre escondera esse sentimento, aparentando distância e indiferença, algum charme discreto, alimentando assim os olhares cheios de promessas das mulheres que conhecera. Por ironia os colegas entendiam que esse comportamento era uma estratégia de um homem tímido e inseguro. E sabiam o que diziam. Todavia agora perdera o encanto que lhe reconheciam e até começou a descuidar a sua apresentação. Nada aconteceu como previra. Menos de 6 meses depois da reforma, já estava cansado. Os dias custavam a passar e começou a ficar sentado em frente da TV, sonolento, e dia a dia mais alheio do mundo. Dera voltas à cabeça, para encontrar qualquer coisa, que lhe ocupasse o tempo. Era egocêntrico bastante, para pensar que tudo se devia concentrar à sua volta. Em consequência, qualquer atividade que implicasse partilha ou supervisão dera sempre mau resultado. Os outros não o compreendiam nem aceitavam a sua, por vezes, irritante impertinência.

Sentira-se frustrado e incompreendido, e concluíra que o que quisesse fazer teria de ser sozinho. Só não sabia era o quê.

Assustou-se, passeava no Castelo quando um antigo colega lhe pousou a mão das costas e disse:

- António, estás a cumprir alguma pena?

Estás perdido, olhos no chão, passos errantes e nem  te apercebes que a estrela da tarde, tão bela, já ilumina o rio. Recomeça a viver, não te escondas.

E foi seguindo o caminho da estrela da tarde que chegou às Amoreiras e decidiu que iria alugar um apartamento e, porque não, fazer o que sempre fizera. Investigar.

Escolheu o escitório e no atrium do edifício mandou colacar uma placa iindicando:

                            

         António P. Castro – Investigador.

 

entrada do espaço

 

ás  perdido.

Força companheiro, vive os teus sonhos!

CRESPÚCULO

 

                                        ANGÚSTIA

 

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.

Vinicius de Moraes

 

                                        SOLIDÃO

                                                                            

           Era o entardecer de um dia de fim de Verão e o sol que se escondia por entre as nuvens dispersas, perdia luz e calor. António Pedro acabara de entrar no gabinete, recentemente alugado, num edifício de escritórios nas Amoreiras. Ficou fascinado com a paisagem que se lhe oferecia, sentindo um agradável torpor que se acalmava os sentidos. Como era belo o entardecer e o lento cair da noite.

            Foi buscar uma cadeira e um cinzeiro, sentou-se em frente da janela que abriu, para beber o ar da noite pura e serena enquanto saboreava um cigarro, enviando o fumo em círculos que se diluíam no ar. Entrara agitado no seu gabinete. Tinha sido um dia a correr de um lado para o outro, juntando os papéis que queria levar, os livros que sempre o acompanhavam e escolhendo o computador mais adequado ao seu trabalho. Agora estava tranquilo. Olhava para o seu novo espaço, era uma nova vida que estava começando, cheio de esperança e ao mesmo tempo com a angústia de perceber que a sua vida se modificara e num período muito curto. Primeiro o seu trabalho e depois o seu casamento. Mas a vida é assim, nada é eterno tudo é passageiro, concluiu enquanto apagava o cigarro. Perdeu-se na noite calma e serena onde nada acontecia. Mas com ele ficaram as recordações. Abriu o computador, olhou de relance para o correio eletrónico, mas nada havia de interessante. Não admira, pensou ele, apenas falei a um reduzido grupo de amigos, comunicando o meu novo caminho.

            “Até ele mesmo se surpreendeu, quando com 54 anos de idade decidira abandonar o cargo de Inspetor da Polícia Judiciária. Tinha sido uma decisão repentina, motivada por algum cansaço e pelas mazelas que uma longa e difícil investigação, que lhe ocupara mais de dois anos de trabalho e dedicação exclusiva, perseguindo o autor de alguns crimes hediondos. Conseguira mas nunca mais fora o mesmo. O seu perfil psicológico ficara afetado porque em vez do raciocínio frio e analítico passara a deixar-se levar pelo ódio e pela revolta. Ficara cansado e escolhera outro caminho. Esta alteração de personalidade afetara, também, a relação conjugal. A mulher, Filomena, tinha sido sempre o suporte e o amparo nos momentos difíceis, mas um pequeno incidente havia minado a confiança. Encontrara por acaso, no bolso do casaco que António pendurara no cabide do quarto, uma carta redigida em termos apaixonados. Quando lhe mostrara a carta e lhe pedira explicações, ele incomodado, respondeu ter sido uma paixão não correspondida, duma antiga colega de Universidade, um relacionalmente que terminara antes do casamento. Filomena, nada dissera, mas mostrara-lhe a data, um mês atrás.

            “ Nunca pensei que me andasses a trair, disse ela, e esta carta não terá sido a única. Imagino o seu conteúdo, de certeza que a tua amante é a colega que te acompanhou nas últimas investigações que foste fazer ao Porto. Investigações, digo eu, talvez eu tenha sido a única pessoa que acreditou. Os teus colegas e amigos certamente sabiam mas, como sempre, funcionou a regra de segredo que vocês, os homens, gostam de cultivar. Parva que eu fui!”

António Pedro despertou quando o relógio de parede anunciou a meia-noite. Estava  prisioneiro da solitão.tão perdido nos seus pensamentos e nem se apercebera como o tempo passara. Sacudiu as memórias, sentiu pela primeira vez o frio da noite e a angústia de regressar a uma casa vazia.

 

CRESPÚSCULO

 

                                              

                                                            A M O R

 

                                                A CASA NA COLINA

 

10 – O FIM

 

 

 

Joana voltou para casa na noite de Natal, encontrou o irmão e ouviu a notícia. Luís havia voltado para Lisboa, deixara a chave da casa e não dera mais notícias.

Ela gritou, NÃO! E com os olhos afogados em lágrimas, abraçou o irmão com toda a força, segredando-lhe, “ Obrigada, a tua mentira não pode curar a minha dor. Adeus irmão, não te esqueças de mim.”

Pegou na chave, correu para a sua velha motoreta e voltou para a casa da colina. O irmão deixara-lhe sobre a cama, a carta que Luís havia escrito. Junto um raminho de alecrim que teimava e perfumar a história.

Sentada debaixo da azinheira, leu e releu a carta do Luís.

O tempo ameaçava chuva, frio e sobretudo vento com rajadas fortes. O Outono ia-se despedindo. A azinheira era forte mas o vento soprava e ameaçava o fim.

Joana escolheu o seu caminho. Sem uma lágrima, a vida não faria sentido. Tudo perdera. Caminhou até à árvore que tanto significava para ela e decidiu que era naquele lugar onde sonhara e sofrera que tudo iria terminar.

Prendeu uma corda num dos braços da azinheira, passou o nó pelo pescoço e lançou-se no ar.Com um leve estertor, Joana despediu-se da vida.

Uma rajada de vento fustigou a casa na colina. Ali tudo começara e chegara ao fim.

CRESPÚCULO

 

                                                     A M O R

 

                                               A M O R

 

 

 

                                            A CASA NA COLINA

 

9 – E A CASA FICOU SÓ

 

 

Decidira que na casa da colina seria o seu lugar.

Talvez Joana voltasse e ele queria estar lá à sua espera.

De manhã, sentou-se debaixo da árvore, espreitando o movimento das máquinas ceifando o trigo. Viu homens e mulheres trabalhando desde o nascer até ao pôr- do- sol. Só nessa altura regressava a casa.

Não conseguia dormir e começou e percorrer a casa restaurada mas que ainda guardara móveis antigos. Uma arca de madeira encostada no vão de uma janela chamou-lhe a atenção. Sentou-se, abriu a tampa e foi encontrar fotografias e cartas que representavam a história de amor e de desespero de que Joana lhe dera sinais e o Manuel lhe contara.

Encontrou muitas fotografias que foi percorrendo desde o primeiro álbum até a carta de despedida dos infelizes Elvira e Jorge.

Luís tremeu, compreendera a ligação de Joana com as ruínas da casa da colina e isso foi a mais um passo para uma noite perdida. Sem dormir e sem comer.

Quando as forças lhe começaram a faltar, deixou de fazer a peregrinação até à árvore e foi ficando sentado na beira da cama. Fechava os olhos e imaginava ver Joana a cuidar da Elvira e do Jorge, o casal que ali vivera os últimos anos de uma vida sofrida.

As sombras queriam contar a história de amor mas ele já a conhecera. Ela estava escrita em cada parede.

Sentiu que as mãos começaram a tremer e os olhos cansados. Era tempo de se despedir. O verão terminou, o Outono aproximou-se trazendo as nuvens em que se iria perder. Reunindo as últimas forças, arrastou-se para uma mesa, sentou-se e escreveu o seu fim.

 

 “ Meu amor,

Eu vivi os melhores dias da minha vida infeliz, partilhando os nossos corpos. Não esperava, nem nos meus raros momentos de esperança, poder sentir de novo o calor do corpo duma mulher, ardente e apaixonada.

Sofri com a tua partida que, todavia já receava.

O teu irmão contou-me histórias da tua vida. Depois, encontrei fotografias, tuas, da Dona Elvira e do Senhor Jorge. Agora percebo a história de amor que me quiseste fazer sentir. Amor e dor. Mas dor é algo que eu já carrego.

Mas eu quero acreditar que sou capaz de enganar a noite que se cerra sobre a minha vida, e ver-te abrindo os braços como uma promessa de amor. Um minuto basta-me!

Sonho meu, tu és a vida e eu ficarei esquecido no pó que o vento irá espalhar pela colina.

Mas fui feliz. Valeu a pena.

Eu acredito que, um dia, irás voltar à casa da colina. Nesse dia pensa em mim, naquele náufrago que um dia encontraste.

Meu amor, minha loucura, minha deusa, ADEUS.”

 

Num último esforça arrastou-se para debaixo da azinheira, da sua azinheira. Deixara de se alimentar, Para quê pensava? A morte já aí vem.

E foi no crepúsculo dum dia de Outono que sentiu que um vulto caminhava na sua direção.

No último gesto, reunindo as poucas forças que lhe restavam deu um passo em frente e gritou JOANA! As pernas não responderam ao seu grito e caiu. E foi o fim.

 

 

                                         

 

 

 A CASA NA COLINA

 

8 – HISTÓRIA DE AMOR

 

 

Entretanto ao cair da noite de Domingo o Joaquim levou-o a uma outra aldeia, onde Manuel o aguardava.

Comeram quase em silêncio depois saíram sentaram-se num cadeirão, encostado à parede e virado para o horizonte e começaram a fumar.

Luís experimentou acender o cigarro, sem resultado, mais outro e acabou por desistir. Aquele encontro poderia ajudar a perceber o caminho mas…

Foi o Manuel que, fixando o olhar no Luís começou a conversa.

 

- Eu sei que Joana partiu, diz Manuel, com uma voz tremida. Confesso que não foi uma surpresa. Ainda não tive notícias e agora que o verão está prestes a terminar e ela não voltou tenho que lhe contar uma história.

A casa na colina, como já percebeu teve uma ligação muito forte à minha irmã. Foi uma ligação de entrega, amizade amor e dor. Admito que ela se escondeu e que ande, perdida no meio de pessoas, duma grande cidade, vivendo o medo do futuro. Medo por ela mesmo, por recear não ser capaz de esquecer o passado que tanto a feriu.

O Luís trouxe-lhe um novo alento, talvez não se tenha apercebido, mas Joana apaixonou-se e não foi capaz de reconhecer o amor. Fugiu, quem sabe, um dia voltará.

E para entender o medo da minha irmã, deixe-me contar uma história de amor, que se transformou em dor e sofrimento.

“ Quando o nosso Pai morreu, tinha eu quinze e Joana dezoito anos de idade, foi um choque que mexeu na nossa vida. Joana, estava em Lisboa no primeiro ano da faculdade de medicina. Fora sempre uma aluna exemplar, orgulho dos Pais que tudo fizeram para que ela seguisse o sonho.

Mas a vida é, por vezes, madrasta. Ainda não refeitos da morte do nosso Pai, e num espaço de algumas semanas, a minha pobre Mãe seguiu o mesmo caminho.

De repente o destino entregou a Joana a responsabilidade de garantir o nosso sustento e o futuro seria o que Deus quisesse. Mas o sonho da universidade ficou por ali.

Eu perdi-me, deixei-me levar por caminhos ínvios e ela encontrou-me, deu-me carinho e salvou-me.

Joana namorava desde os bancos da escola, com um colega, filho único de uma família considerada e toda a gente acreditava no casamento.

Também ele, Duarte é o seu nome, seguira para Lisboa mas escolhera outro caminho.

O destino pode trazer felicidade e dor. E Joana recebeu, apenas, dor.

Duarte que conquistara o seu coração não era o homem certo. Joana regressou a casa e ele continuou em Lisboa, depois no Porto, a fazer ela não sabia o quê.

Os Pais do Duarte eram pessoas simples mas com algumas propriedades. Tinham a casa onde viviam, uma casa grande nos arredores de Beja e uma pequena casa, esquecida no cimo dum monte.

O filho regressou a casa, perseguido por credores de dinheiro que gastara no jogo e no consumo de droga. Pagar era uma questão de vida ou de morte. Obrigou o Pai a vender as melhores terras, a melhor casa e apenas lhes deixou a casa da colina. Entretanto desapareceu.

Joana tinha por hábito subir até a casa da colina. Para ela era o momento de fuga aos desgostos que a vida lhe reservara.

E foi numa dessas visitas que encontrou os Pais do Duarte que não lhe souberam esconder que com eles apenas tinha levado os desgostos, a pobreza e a doença.

Joana investiu algumas, pequenas, poupanças e assegurou condições de vida para aquele casal.

Entretanto a doença da Dona Elvira agravou-se e foi internada no Hospital de Beja. Numa das visitas o médico chamou Joana de parte, dizendo-lhe que o hospital pouco poderia fazer por uma doente, sofrendo de uma doença sem cura, apenas era sujeita a cuidados paliativo e que chorando pedia para voltar para casa. E eu, digo-lhe, não apenas como médico mas como ser humano, que ela terá um fim menos doloroso, em casa, junto das pessoas que ama.

 

O marido, o senhor Jorge, olhou para Joana e com os olhos rasos de lágrimas, pediu ajuda. Joana abriu os braços e disse sim. Para aquela pobre família destruída, passou a ocupar o lugar da filha que eles haviam sonhado.

Foi assim durante mais de cinco anos, até que um dia, a minha irmã foi a Beja levantar a medicação, e voltou a correr para a casa da Colina. Sentiu um pressentimento, lembrou-se do beijo que o Senhor Jorge lhe dera quando ela montara a motocicleta para ir a Beja. Sim o calor do beijo tinha um sabor de despedida.

Conduziu com a máxima velocidade que a motoreta lhe permitia, subiu a encosta e entrou na casa da colina.

E o pressentimento transformou-se em realidade. Na cama jazia a Dona Elvira e deitado a seu o marido que a decidira acompanhar na última viagem.

Na pequena mesa do quarto Joana encontrou a nota Jorge escrevera antes de pôr termo à vida e que dizia:

 

 

“ Joana:

Do fundo do coração obrigado por tudo o que nos deste. Foste a única alegria que vivemos depois do abandono a que por amor tivemos de enfrentar, Tu foste a luz, o riso e a alegria para dois velhos cansados. Mas tudo tem um fim. Peço-te, não chores e vive a tua vida, tu mereces ser feliz.

Adeus

Elvira e Jorge.”

Manuel acabara de contar a história da casa na colina. Uma história de amor que ficara gravada no coração de Joana e permanecia viva em qualquer canto daquela casa. Olhou para Luís e rematou:

- Luís percebe a razão por que Joana se escondeu?

Luís acenou o sim e afastou-se.

Decidiu que a casa da colina seria o seu lugar. Talvez Joana voltasse e ele queria estar lá à sua espera.

Luís acenou o sim e afastou-se.

Decidiu que a casa da colina seria o seu lugar. Talvez Joana voltasse e ele queria estar lá à sua espera.

 

 

 

 

 

CRESPÚSCULO

 

                                                     A M O R

 

                                         

 

 A CASA NA COLINA

 

8 – HISTÓRIA DE AMOR

 

 

Entretanto ao cair da noite de Domingo o Joaquim levou-o a uma outra aldeia, onde Manuel o aguardava.

Comeram quase em silêncio depois saíram sentaram-se num cadeirão, encostado à parede e virado para o horizonte e começaram a fumar.

Luís experimentou acender o cigarro, sem resultado, mais outro e acabou por desistir. Aquele encontro poderia ajudar a perceber o caminho mas…

Foi o Manuel que, fixando o olhar no Luís começou a conversa.

 

- Eu sei que Joana partiu, diz Manuel, com uma voz tremida. Confesso que não foi uma surpresa. Ainda não tive notícias e agora que o verão está prestes a terminar e ela não voltou tenho que lhe contar uma história.

A casa na colina, como já percebeu teve uma ligação muito forte à minha irmã. Foi uma ligação de entrega, amizade amor e dor. Admito que ela se escondeu e que ande, perdida no meio de pessoas, duma grande cidade, vivendo o medo do futuro. Medo por ela mesmo, por recear não ser capaz de esquecer o passado que tanto a feriu.

O Luís trouxe-lhe um novo alento, talvez não se tenha apercebido, mas Joana apaixonou-se e não foi capaz de reconhecer o amor. Fugiu, quem sabe, um dia voltará.

E para entender o medo da minha irmã, deixe-me contar uma história de amor, que se transformou em dor e sofrimento.

“ Quando o nosso Pai morreu, tinha eu quinze e Joana dezoito anos de idade, foi um choque que mexeu na nossa vida. Joana, estava em Lisboa no primeiro ano da faculdade de medicina. Fora sempre uma aluna exemplar, orgulho dos Pais que tudo fizeram para que ela seguisse o sonho.

Mas a vida é, por vezes, madrasta. Ainda não refeitos da morte do nosso Pai, e num espaço de algumas semanas, a minha pobre Mãe seguiu o mesmo caminho.

De repente o destino entregou a Joana a responsabilidade de garantir o nosso sustento e o futuro seria o que Deus quisesse. Mas o sonho da universidade ficou por ali.

Eu perdi-me, deixei-me levar por caminhos ínvios e ela encontrou-me, deu-me carinho e salvou-me.

Joana namorava desde os bancos da escola, com um colega, filho único de uma família considerada e toda a gente acreditava no casamento.

Também ele, Duarte é o seu nome, seguira para Lisboa mas escolhera outro caminho.

O destino pode trazer felicidade e dor. E Joana recebeu, apenas, dor.

Duarte que conquistara o seu coração não era o homem certo. Joana regressou a casa e ele continuou em Lisboa, depois no Porto, a fazer ela não sabia o quê.

Os Pais do Duarte eram pessoas simples mas com algumas propriedades. Tinham a casa onde viviam, uma casa grande nos arredores de Beja e uma pequena casa, esquecida no cimo dum monte.

O filho regressou a casa, perseguido por credores de dinheiro que gastara no jogo e no consumo de droga. Pagar era uma questão de vida ou de morte. Obrigou o Pai a vender as melhores terras, a melhor casa e apenas lhes deixou a casa da colina. Entretanto desapareceu.

Joana tinha por hábito subir até a casa da colina. Para ela era o momento de fuga aos desgostos que a vida lhe reservara.

E foi numa dessas visitas que encontrou os Pais do Duarte que não lhe souberam esconder que com eles apenas tinha levado os desgostos, a pobreza e a doença.

Joana investiu algumas, pequenas, poupanças e assegurou condições de vida para aquele casal.

Entretanto a doença da Dona Elvira agravou-se e foi internada no Hospital de Beja. Numa das visitas o médico chamou Joana de parte, dizendo-lhe que o hospital pouco poderia fazer por uma doente, sofrendo de uma doença sem cura, apenas era sujeita a cuidados paliativo e que chorando pedia para voltar para casa. E eu, digo-lhe, não apenas como médico mas como ser humano, que ela terá um fim menos doloroso, em casa, junto das pessoas que ama.

 

O marido, o senhor Jorge, olhou para Joana e com os olhos rasos de lágrimas, pediu ajuda. Joana abriu os braços e disse sim. Para aquela pobre família destruída, passou a ocupar o lugar da filha que eles haviam sonhado.

Foi assim durante mais de cinco anos, até que um dia, a minha irmã foi a Beja levantar a medicação, e voltou a correr para a casa da Colina. Sentiu um pressentimento, lembrou-se do beijo que o Senhor Jorge lhe dera quando ela montara a motocicleta para ir a Beja. Sim o calor do beijo tinha um sabor de despedida.

Conduziu com a máxima velocidade que a motoreta lhe permitia, subiu a encosta e entrou na casa da colina.

E o pressentimento transformou-se em realidade. Na cama jazia a Dona Elvira e deitado a seu o marido que a decidira acompanhar na última viagem.

Na pequena mesa do quarto Joana encontrou a nota Jorge escrevera antes de pôr termo à vida e que dizia:

 

 

“ Joana:

Do fundo do coração obrigado por tudo o que nos deste. Foste a única alegria que vivemos depois do abandono a que por amor tivemos de enfrentar, Tu foste a luz, o riso e a alegria para dois velhos cansados. Mas tudo tem um fim. Peço-te, não chores e vive a tua vida, tu mereces ser feliz.

Adeus

Elvira e Jorge.”

Manuel acabara de contar a história da casa na colina. Uma história de amor que ficara gravada no coração de Joana e permanecia viva em qualquer canto daquela casa. Olhou para Luís e rematou:

- Luís percebe a razão por que Joana se escondeu?

Luís acenou o sim e afastou-se.

Decidiu que a casa da colina seria o seu lugar. Talvez Joana voltasse e ele queria estar lá à sua espera.

Luís acenou o sim e afastou-se.

Decidiu que a casa da colina seria o seu lugar. Talvez Joana voltasse e ele queria estar lá à sua espera.

 

 

 

 

 

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