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barba cabelo e gemidos

barba cabelo e gemidos

CRESPÚCULO

                                        A M O R

 

                            A CASA NA COLINA

 

 

5 – POEMA NÚMERO 8

 

 

 

Aquele momento, foi o encontro de dois corações desesperados. Foi uma vertigem que passou como uma nuvem perdida. Com o silêncio como começou assim se escondeu.

Joana saiu correndo. Luís ficou sentado, controlando as emoções.

Quem diria que eu, desiludido na vida, fugindo à procura de um lugar calmo para viver o resto dos dias, passados três do início do caminho, iria viver um momento tão emotivo, tão apaixonado.

Eu, pensava ele, que já havia esquecido o amor e o sexo, entreguei-me como se fosse o primeiro dia, do primeiro amor.

Ficou no lugar onde ainda sentia o calor e o cheiro daquela mulher e assim dormiu. Acordou como se fosse dum sonho. A lua já ia alta quando despertou e desceu para o quarto que Joana lhe havia destinado. E dormiu, embalado numa nuvem que se havia colado ao corpo.

Acordou cedo, barbeou-se, tomou um duche rápido, a água estava mesmo fria, limpou-se com energia e sentiu de novo o calor. Vestiu uns calções e uma camisola leve, calçou ténis e desceu.

Joana não estava na sala, mas tinha deixado uma chávena, pão e manteiga e no fogão a cafeteira que ainda fumegava. Serviu-se, generosamente de café, comeu uma fatia de pão com queijo, e sentiu que a felicidade chegara.

Sentia-se leve e sedento de companhia. A noite, aquela primeira noite, seria o prenúncio dum verão escaldante, talvez o maior e mais intenso. Até quando? Ah isso não sabia nem queria saber. Seria até ao fim.

Ouviu o ruído da motoreta, saiu à rua e Joana já o esperava sentada ao volante e avisando:

 

- Hoje está um dia de sol que me desafia a ver as árvores a florir, o trigo a nascer, o canto dos pássaros, enfim a Natureza é a minha confidente e companheira. Convido-o para ficar a conhecer o meu mundo mas ficará num local à sua escolha e eu irei fazer o meu trabalho. Levo um farnel para si e de for do seu agrado, traga um livro, daqueles que eu vi no seu saco de viajem, e espere por mim.

Luís voltou a casa, abriu o saco dos livros e escolheu o livro que poderia ser a história da sua vida. Vinte Poemas de Amor e uma Canção desesperada. Auto, Pablo Neruda.

Com os solavancos pelo caminho, Luís sentiu o mesmo desejo que perfumara a noite que não esquecera. Ele bem sentia a pele macia da companheira, por baixo dos seios soltos. Isso excitou-o como há muito tempo se não sentia, e fazia-o desejar que a viajem fosse até ao fim do mundo.

Mas Joana parou à sombra de uma velha oliveira e explicou:

“- Esta oliveira marca a separação de três propriedades. Naquela encosta que se vê à esquerda, plantei um olival novo. São quatrocentas oliveiras plantadas há dois anos e que são regadas num sistema gota a gota. Pertencem-me e eu trato-as como se trata um filho. Dia sim, dia não, faço-lhe uma visita, falo com elas, limpo algumas ervas e sento-me numa pedra que me permite espraiar os olhos pelos campos e beber a magia do meu Alentejo. Esqueço as desventuras e os desgostos, porque como Luís deve calcular, também os sofri. Aprendi a viver a tranquilidade e a beleza da natureza e as oliveiras que plantei com suor, dar-me-ão os frutos que me ajudarão a enfrentar o futuro.

A seara que se estende daqui até aquele monte, e indicou uma elevação bem distante é minha e de meu irmão. Foi a herança que recebemos dos nossos Pais. Cultivamos o trigo ou outro cereal conforme o mercado ou se o ano for seco ou chuvoso. É o Manuel quem toma as decisões. Este ano, como choveu bastante semeamos trigo e é de esperar uma boa colheita.

Os terrenos que não estão cultivados são de pouca qualidade, embora seja neles que construímos duas pequenas barragens de terra, guardando a água das chuvas e de um pequeno regato que por ai corre. É uma zona pedregosa, cheia de flores selvagens, com o cheiro da esteva e da madressilva. Passo muito do meu tempo, estendida numa rocha, molhando os pés na água, e ouvindo o chilrear da passarada que aqui faz os seus ninhos. Escolha um lugar de que goste, e demorarei tempo mas no final do dia passarei para o levar. Parou a motoreta, indicou ao companheiro a árvore que serviria de local para o encontrar no regresso, Luís desceu, caminhou e sentou-se na sombra do pinheiro. Abriu o livro para ler o poema 8. Amor, Amor,

 

CRESPÚCULO

      

 

                                             A M O R

                

                   A CASA NA COLINA

 

4 - PAIXÃO

 

Luís hesitou, não sabia o que dizer, mas abriu o coração.

-“ Joana, perceba que um homem desiludido, doente, e carente de paz interior como eu, não podia assistir ao desmoronar dum sonho. Mas acredito que os sentimentos podem fazer renascer a esperança, e por isso me rendo. Vou cumprir o destino que aqui me trouxe, nesta colina, nesta casa, olhando o infinito que adivinho para lá daqueles montes. Já agora não me chama de senhor, o meu nome é Luís. Digo que já decidi ficar, não conseguirei viver na casa, preciso de recuperar das emoções e esperar os arranjos que terei de mandar fazer. Até lá, ficarei debaixo daquela árvore que já me estendeu o seu braço protetor.

-“ Aceite a minha sugestão, respondeu Joana, eu vivo na aldeia, ocupo a casa que os meus Pais me deixaram, tenho o primeiro andar livre e ainda um pequeno terraço. Também tenho umas vistas bonitas e o terraço pode servir para os seus exercícios matinais, já que não há casas mais altas na cercania. Ninguém irá reparar se está nu ou em cuecas.

Pode ficar o tempo que quiser até à conclusão das obras, na sua nova casa. Quando o convidei não pensei em fazer negócio. Eu apenas quero ajudá-lo.”

-“Mas o seu irmão e a vizinhança acharão bem que você partilhe a sua casa com um homem, para mais desconhecido, retorquiu Luís?”

“- Com isso não se importe, sou maior e vacinada e faço a vida de acordo com a minha maneira de ser e não tenho de prestar contas a ninguém. Sou livre como o vento. Respeito as pessoas, ajudo os que precisam mas mantenho sempre alguma distância que não é preconceito, mas apenas a defesa dos sentimentos e emoções que são apenas meus e não costumo partilhar. O meu irmão, único familiar próximo, entendeu a minha vontade. Também ele tem casa própria, terá amigas, nunca me disse que havia assumido algum compromisso duradouro, mas é a vida dele. Temos de trabalhar juntos, na época da sementeira e da colheita. Mas o trabalho é tanto, que nem dá para conversarmos.

Mas, antes de se decidir, quero dizer-lhe que o que lhe proponho é apenas espaço físico, alguma companhia mas a Joana não estará incluída no negócio. “

Luís surpreendido com a afirmação não soube o que dizer. Apenas agradeceu e aceitou o convite.

Em silêncio, juntaram a bagagem, carregaram o atrelado e prepararam a descida da colina.

- “Luís, o atrelado não suporta mais peso, avisou Joana. Por isso o seu lugar terá de ser partilhado comigo, no selim do condutor. Agarre-se bem à minha cintura, pois não quero perdê-lo, logo a seguir a tê-lo encontrado.

A descida da encosta feita com razoável velocidade e destreza, obrigou Luís a colar-se ao corpo da condutora. Sentiu o seu calor, há quanto tempo não sentia o calor do corpo duma mulher, mergulhou o rosto na cabeleira farta e respirou o cheiro a alfazema.

A motoreta parou à porta de casa, mas Luís nem disso se apercebeu. Foi Joana quem com um sorriso irónico lhe disse:

-“Pode largar-me, já chegamos.”

Luís estremeceu, como se acordasse dum sonho, soltou as mãos, desceu da motoreta e encostou-se à parede, pois com a descida, havia sentido uma tontura inabitual.

“- Olhe, disse Joana, eu tenho de ir à minha vida. Vá levando as suas coisas para o quarto do primeiro piso, será o seu enquanto quiser. Faça como se estivesse em sua casa.

Só uma observação, dentro de casa não existem chaves nas portas. A única que existe é a chave da rua que está pendurada atrás da porta, mas não creio que precise de a utilizar.

Como é habitual, não sei quando irei voltar. O tempo para mim é marcado pelo sol ou pelas estrelas, não sou escrava das horas, aliás, nem uso relógio. Fique à vontade, em algum momento regressarei.”

Dito isto, arrancou a toda a velocidade e rapidamente desapareceu.

Luís foi transportando a sua bagagem para o quarto que Joana havia indicado.

Estava cansado, deitou-se da cama cerrou os olhos e sonhou.

O foi um sonho lindo. O calor do corpo de Joana acendera a chama da paixão.

Era o entardecer quando Joana espreitando pela porta o convidou.

“- Suba comigo para o terraço. Eu preparei uma refeição leve e, enquanto comemos, ficaremos olhando as estrelas.

Sentados no banco do terraço, Luís fixou os olhos na mulher que se sentara a sua lado, não resistiu e perguntou:

             “- Joana, porque me olha assim? Se quer conhecer-me, pergunte o que quiser e eu responderei a tudo, com a verdade, prometo.”

            “- Eu não tenho dúvidas de que o fará, respondeu Joana, mas confesso que a sua decisão de vir habitar uma aldeia perdida no meio da planície e numa casa em ruínas, me faz pensar que, por uma qualquer razão que não conheço, mas pressinto, não gostarei de ouvir a sua história. Embora eu possa parecer insensível, a verdade é que, ouvir uma história triste despertará em mim angústias e dores que tento esquecer.

Sugiro-lhe que fale com o meu irmão sobre a recuperação da sua casa na colina.

Até lá é meu convidado.

A minha vida começa bem cedo. Percorro os campos, paro com alguma frequência para admirar um formigueiro, uma flor. Nesses momentos encontro-me comigo, relembro o que vivi e como vivi e faço-o em comunhão com o que de mais belo existe, a natureza.

Quando me quiser fazer companhia, já sabe é sair pelas sete da manhã e regressar pelas sete da tarde. O caminho é o que for. Descansaremos quando nos apetecer, refrescar-nos-emos nalgumas pequenas albufeiras, respiraremos o ar puro e o odor dos campos em flor.”

       “- Joana a minha vida não será um romance, aliás teria até muito pouco que contar. De qualquer modo o destino encaminhou-me para um lugar, que me fez lembrar a minha infância com o cheiro da terra e o brilho do sol. E como prémio o poder sentir o fascínio de uns lindos olhos verdes.”

Joana não escondeu um sorriso leve.

Agora olhava para Luís e sentia-se inquieta, e só ao longe, como um murmúrio ouviu que Luís, olhando no vazio, abria o coração.

Olharam-se nos olhos e num impulso Joana apertou a mão do companheiro, e beijaram-se. Um beijo leve que rapidamente se transformou num momento de paixão. Corpos unidos e sem uma palavra soltaram as emoções esquecidas. Amaram-se com loucura, partilhando calor, desejo, emoções, angústias e paixão.

 

 

 

AMOR _ (CRESPÚCULO)

                                   A  M  O  R

 

                           

                A CASA NA COLINA

 

 

3 – DESILUSÃO E FASCÍNIO

 

Quando o sol se escondeu, Luís, cheio de entusiasmo, decidiu ir ver a nova casa. Procurou a chave, abriu a porta e sentiu uma estranha sensação. Fui uma sensação estranha e nem percebera o porquê, mas ao entrar numa casa fechada e escura sentiu um arrepio e, rapidamente, voltou ao ponto de partida. Como sentira o cheiro dum ambiente estranho, não conseguiu controlar as náuseas que, como já lhe acontecera, seriam o prenúncio de muitas convulsões para conseguir expelir um líquido amarelo que lhe feria a garganta.

Abanou a cabeça, passara do entusiasmo ao desânimo. Aquilo não era uma casa, não podia ser a sua casa. 

Ficou sentado debaixo da árvore, respirou o ar puro, calou os vómitos e chorou. Perdido e sem força para lutar. Fechou os olhos e sentiu uma lágrima que se soltava. Mais uma esperança perdida. O vento era frio para quem não tinha grandes resistências. Escolheu roupa que transportava num saco, embrulhou-se e deu descanso a um corpo cansado e dorido. Acordou ao raiar da aurora. Sentiu um cheiro que lhe provocara os vómitos. Precisava lavar-se. Olhou em redor, a casa não era solução, mas no silêncio da manhã ouviu o chilrear dos pássaros. Seguiu o seu voo e ouviu como um chamamento, o som de água a correr. Foi ver e brotando de umas rochas na traseira da casa, encontrou um fio de água e um pequeno tanque. Nem hesitou, despiu-se, saltou para dentro e esfregou-se com toda a força. Só aguentou uns breves minutos, a água estava fria, saiu e correu à procura do sol. Foi no momento em que ouviu o ruído da motoreta que parava junto da sua bagagem. Olhou, não era o Manuel que a conduzia, mas sim uma mulher, ainda jovem, que se ria da figura que ele fazia, tapando a sua nudez enquanto tremia de frio.  

- Não fique envergonhado, já vi homens nus. Mas para ficar mais à vontade eu vou dar uma volta e volto já. Luís vestiu-se, com roupa lavada e sentou-se no lugar de eleição, debaixo da árvore, e quando a mulher voltou já tinha recuperado da situação insólita que acabara de viver. Todavia os seus olhos não escondiam a tristeza e a desilusão que a casa lhe causara. E eram tão marcados que a mulher parou na sua frente e disse com voz triste:

-“ O meu nome é Joana e sou a irmã do Manuel. Ele contou-me que a casa da colina já tinha um novo proprietário e eu quis ver, com os meus olhos a pessoa que escolheu aqui viver.

Percebo que o meu irmão que está sempre muito ocupado, talvez não o tenha avisado do que iria encontrar, logo que abrisse a porta.

Sinto que sofreu uma desilusão, certamente não esperava encontrar uma casa em ruínas, mas eu digo-lhe que a primeira impressão é para esquecer. A casa precisa de ser recuperada depois de anos de abandono, mas acredite, se há casas com alma eu dir-lhe-ei, esta é uma delas. Não acredito que o senhor seja homem para desistir. Pelo menos, dê oportunidade que o ocaso que o fez escolher este lugar, tão belo, tenha algum significado para si. O senhor foi atraído por forças que, talvez não tenha ainda reconhecido, mas que, pode crer, existem na natureza e na alma de cada um. Arrisco-me a prever que esta casa irá ter um papel na sua vida. Será um papel de felicidade ou de desesperança, isso caberá ao seu coração ir construindo.

Luís ouvindo as palavras ditas com um sentimento tão profundo fizeram com que ele, um náufrago da vida, esquecesse a doença e ousasse acreditar que a poesia que sentira nas palavras daquela mulher, que via pela primeira vez, poderiam ser o renascer da esperança. E ele precisava tanto de acreditar.

 

Olhou de frente para Joana e, falou:

            -“ Joana, perceba que um homem desiludido, doente, e carente de paz interior como eu, não podia assistir ao desmoronar dum sonho. Mas acredito que os sentimentos podem fazer renascer a esperança, e por isso me rendo. Vou cumprir o destino que aqui me trouxe, nesta colina, nesta casa, olhando o infinito que adivinho para lá daqueles montes. Já agora não me chama de senhor, o meu nome é Luís. Digo que já decidi ficar, não conseguirei viver na casa, preciso de recuperar das emoções e esperar os arranjos que terei de mandar fazer. Até lá, ficarei debaixo daquela árvore que já me estendeu o seu braço protetor.

-“ Aceite a minha sugestão, respondeu Joana, eu vivo na aldeia, ocupo a casa que os meus Pais me deixaram, tenho o primeiro andar livre e ainda um pequeno terraço. Também tenho umas vistas bonitas e o terraço pode servir para os seus exercícios matinais, já que não há casas mais altas na cercania. Ninguém irá reparar se está nu ou em cuecas.

Pode ficar o tempo que quiser até à conclusão das obras, na sua nova casa. Quando o convidei não pensei em fazer negócio. Eu apenas quero ajudá-lo.”

-“Mas o seu irmão e a vizinhança acharão bem que você partilhe a sua casa com um homem, para mais desconhecido, retorquiu Luís?”

“- Com isso não se importe, sou maior e vacinada e faço a vida de acordo com a minha maneira de ser e não tenho de prestar contas a ninguém. Sou livre como o vento. Respeito as pessoas, ajudo os que precisam mas mantenho sempre alguma distância que não é preconceito, mas apenas a defesa dos sentimentos e emoções que são apenas meus e não costumo partilhar. O meu irmão, único familiar próximo, entendeu a minha vontade. Também ele tem casa própria, terá amigas, nunca me disse que havia assumido algum compromisso duradouro, mas é a vida dele. Temos de trabalhar juntos, na época da sementeira e da colheita. Mas o trabalho é tanto, que nem dá para conversarmos.

Mas, antes de se decidir, quero dizer-lhe que o que lhe proponho é apenas espaço físico, alguma companhia mas a Joana não estará incluída no negócio. “

AMOR (CRESPÚCULO)

 

2 – PARAÍSO

Acordou sentindo a brisa suave da tarde que se aproximava. O silêncio, a calma, eram o remédio que procurava para as suas dores. Respirou fundo, bebeu o ar puro e sentiu que o Paraíso seria ali, naquela aldeia perdida na imensidão do seu Alentejo.

Olhou em redor guiado pelo barulho de uma porta que, mesmo a seu lado, se abria.

Um homem sai, coloca uma proteção de fitas coloridas contra as moscas e só depois se dirigiu ao desconhecido sentado na soleira na frente da casa, dizendo:

“-Vossemecê parece perdido. Posso ajudar? Talvez precise de alguma coisa do meu estabelecimento? São horas de abertura, é só entrar e escolher, porque aqui não falta nada, e o que não houver hoje, posso garantir que será entregue amanhã à tarde!”

Aliviado por encontrar alguém, Luís esboçou um sorriso e respondeu:

“- Sabe, eu estava era admirado por não ver ninguém. Até pensava que me tinha enganado no destino. Ainda não sei do que irei precisar. Primeiro terei de chegar a casa, arrumar as minhas coisas ver então o que me faz falta.”

Então o senhor vem para ficar e presumo na casa da colina que ouvi dizer ter sido vendida?”

“- Sim e fui eu quem a comprou. Queria um lugar isolado, onde pudesse encher os pulmões de ar puro e beber a paisagem. Não encontrei nada melhor e por isso aqui estou, contente, mas embaraçado com tanta bagagem que não sei como transportar.”

O meu nome é Luís “

Meu amigo,lá isolada a sua casa é. Respirar ar puro e admirar a paisagem também lhe vai ser fácil, mas a casa está desabitada há muito tempo, poderá encontrar algumas limitações ao conforto em que terá vivido. Nada, porém, que não possa ser resolvido. Mas, acredite o que lhe digo, os primeiros tempos não serão fáceis. O acesso também não o será, pois se bem me recordo, existe apenas um carreiro, que deve estar em mau estado, e que era utilizado, por uma carrocita pequena, puxada por um burro, quase tão velho como o casal que lá habitava, e lá morreu. Não o quero desmoralizar, o sítio é muito bonito, de verdade, mas também vai encontrar dificuldades. Por exemplo e para já, não terá acesso ao abastecimento de água, à distribuição de energia elétrica e para ajudar não existe rede para o funcionamento de telemóveis. O abastecimento de água será o menor dos males. Tem, ao que eu me lembro, uma nascente de água mesmo perto da casa, com um pequeno tanque de reserva. E o resto terá de se habituar. Porque garantido, só terá a calmaria dos dias no Alentejo e a solidão como companheira. Eu poderei ajudar, passarei para o visitar, dia sim, dia não. Pode passear e deixar escrito num papel, pregado na porta, o que vai precisar.

Agora e para o ajudar a transportar as suas coisas, eu resolvo a questão utilizando a minha motoreta com atrelado. Mas terá de esperar mais um pouco, até que o empregado que me ajuda na loja, se apresente ao trabalho.”

“- Oh meu amigo, nem imagina o meu alívio. Por isso esperarei o tempo que for preciso. Na verdade, talvez eu tenha sido imprudente ao escolher a casa, como o refúgio que precisava para descansar, mas agora não me resta outra alternativa que não seja a de contar com a sua amabilidade e simpatia. Por isso lhe agradeço e esperarei o tempo que for necessário.”

- Então eu já volto. Já agora apresento-me. “O meu nome é Manuel Carvalho e aqui nas redondezas toda a gente me conhece pois, além de comerciante, sou também o Presidente da Junta da Freguesia.”

Passou algum tempo, mas cansado como estava nem isso era importante. O sol começara a cair quando Luís ouviu o ruído estridente de um motor. Era o Manuel Carvalho que se aproximava, montado na motoreta e puxando um pequeno atrelado.

“- Vamos embora amigo, vamos lá subir a encosta. A casa na colina espera por si.”

Foi uma subida difícil. Como Manuel previra, o caminho estava quase intransitável o que lhe exigiu perícia, acelerações do motor e em alguns lugares foi necessário recorrer à força de braços para mover a composição. Manuel era um homem ainda jovem, criado no campo e, apesar do suor que lhe escorria pelas fontes não parou de empurrar. Luís também procurou ajudar, mas entre tropeções e escorregadelas a sua ajuda foi apenas cheia de vontade, porque força não tinha. Mas conseguiram chegar ao terreiro em frente da casa. Manuel ajudou a descarregar a bagagem e despediu-se:

            “ Vou ter de regressar a tempo de fechar a loja e seguir para uma reunião na Junta. Não se esqueça que pode, sempre, contar comigo e não esqueça, a casa não está preparada.

            “- Não se prenda comigo amigo Manuel. Vou descansar olhando a paisagem que, tenho a certeza, me irá deslumbrar.

Luís assistiu à partida do Manuel. Estava só, olhou em redor, viu uma grande árvore, uma azinheira que desafiava o sol. É lindo, pensou, enquanto sentado no chão admirava o entardecer.

Ajeitou-se, acendendo um cigarro que saboreou com prazer e percebeu, que só aquele momento, admirando os campos que se estendiam por pequenos montes e vales até onde a vista alcançava, já teria pago o cansaço da sua aventura.

CRESPUCULO

                                             AMOR

Duvida da luz dos astros,

De que o sol tenha calor,

Duvida até da verdade,

Mas confia em meu amor.

William Shakespeare

                                                  

 

                            A CASA NA COLINA

 

1 – A VIAGEM

 

A camioneta da carreira, embora com significativo atraso, acabara de estacionar no largo da pequena povoação perdida no Baixo Alentejo.

Saíram dois miúdos apressados, as sacolas ao ombro eram o sinal de que regressavam da escola. Iriam brincar? Quem sabe, pensava o passageiro que viajara deste Lisboa, na procura do fim do caminho.

O desconhecido, homem acima dos quarenta anos, foi o último a abandonar a camioneta, ajudando o motorista a retirar as suas coisas, bastantes, que quase enchiam o porta-bagagens da pequena e já cansada, camioneta.

O motorista esboçou um sorriso de agradecimento e arrancou. Foi um instante de alguma agitação mas depressa o largo voltou a ficar calmo e vazio.

No meio, sem saber bem o que fazer, ficara o passageiro desconhecido, um homem da cidade, que se sentia perdido, rodeado por malas e sacos que nem sabia como e para onde transportar.

Sentou-se na mala, puxou dum cigarro e deleitou-se com o fumo que inspirava. Estava só e cansado. Apesar de ter tentado deixar o vício do tabaco, voltara a ele, pois reconhecera que deixar de fumar seria abandonar um dos últimos prazeres que lhe restariam até ao fim da vida.

Olhou para todos os lados, não viu ninguém. A praça era um quadrado de meia dúzia de casas em cada lado, rodeando um pequeno canteiro onde uma oliveira desafiava o tempo. As casas eram, na sua maioria térreas, uma porta duas janelas, todas caiadas de branco com o rodapé e as molduras da porta e das janelas, pintadas de azul.

Finalmente olhou com mais atenção para uma casa maior que quase completava um dos lados da praça. Era uma casa alta, mais de dois andares e à sua volta um banco corrido ao longo da parede, protegido do sol pela sombra de algumas videiras.

Ali estava a primeira coisa boa que aquele dia lhe trouxera, um lugar à sombra e um banco para se sentar.

Começou a carregar as suas coisas e depois de três ou quatro idas conseguiu terminar a tarefa e sentar-se no banco, encerrar os olhos e recuperar do cansaço. Já o sabia, mas aquele pequeno esforço mostrara a sua debilidade. O corpo já não lhe respondia como antigamente, mais o pior cansaço era a sua luta entre a mente que resistia e a desesperança, que pouco a pouco ia vencendo.

Estava um dia quente, nem uma leve aragem lhe trazia algum alívio. Talvez tivesse subestimado o calor da planície alentejana quando decidira procurar um lugar isolado e calmo, onde pudesse fazer uma vida tranquila, e eventualmente, acabar o livro que prometera a si próprio escrever, sem conseguir dar corpo à história que havia imaginado. Acabar de escrever um livro sorriu, pois aquele fora o pretexto para explicar aos amigos a sua decisão de mudar de vida.

Porém a realidade era bem diferente. Bem que gostaria de ser capaz de escrever um livro, ou dois ou três, mais teria tempo ou talento para tal empreitada?

É que o diagnóstico médico, feito após uma série de exames, confirmava que ele sofria de uma doença incurável e já em estado avançado, pelo que a esperança de vida não seria muito longa. O médico que lhe deu a notícia fora muito direto. Dissera-lhe, palavras que nunca mais esqueceria:

 

            “- Meu caro, eu podia arranjar promessas para o tratamento da sua doença. Mas eu não acredito em milagres, embora já tenha sido surpreendido com situações inexplicáveis. De acordo com a minha experiência, a sua doença, cujo nome me dispenso de dizer, não tem cura. Os cuidados que o hospital lhe poderá assegurar serão, apenas, cuidados paliativos. Pense se opta por alimentar uma ilusão ou se prefere enfrentar o caminho, vivendo cada dia como sendo o último e aproveitar para fazer alguma coisa que lhe dê prazer. Eu já lhe disse que devia deixar de fumar, é verdade o fumo faz-lhe mal, mas não será também importante o alívio que sente quando inspira o fumo do cigarro? Mas deixo à sua vontade. Marco-lhe uma consulta para seis meses e leva medicamentação que deverá tomar diariamente e alguns para enfrentar dias mais difíceis. Tem o meu telefone, utilize-o sempre que precisar de mim. Por favor entenda o que eu lhe disse como o amigo e não como médico.”

 

E foi assim que Luís Freitas, quarenta e oito anos de idade, divorciado sem filhos, carregando a doença sem cura, se confrontou com a realidade. Estava só.

 

Cansado da profissão que escolhera, trabalhava num serviço público sem prazer e sem esperança de futuro, não demorou muito a escolher. O passado ficaria esquecido na vida sem grandes memórias, o presente seria o caminho do regresso ao Alentejo onde nascera e o futuro, bem o futuro seria vivido dia a dia. Sem preocupações, sem esperanças, mas com a convicção de que seria ele a mandar no resto da sua vida.

Com base no relatório médico conseguira a reforma antecipada, vendera o seu ativo, apenas um apartamento na periferia da grande cidade, encontrou uma garagem que alugou para guardar os livros, mais algumas recordações de família, móveis que herdara dos Pais e só por isso lhe eram importantes e preparou a bagagem para a viagem que tinha decidido fazer. Num jornal vira um anúncio de venda de uma casa no Alentejo, a poucos quilómetros de Beja. Gostou, o preço não era exagerado e as suas finanças permitiam-lhe comprar a casa e ainda lhe sobrava algum para outros gastos.

Guardara para si o seu estado de saúde e mentiu para que não pudesse ver no rosto dos poucos amigos, a surpresa e as manifestações de pesar, acompanhadas pelas palavras de circunstância. O pretexto era o cansaço, a solidão e o apelo que confessara sentir para escrever o livro.

A ideia de escrever, até a ele lhe pareceu boa, por isso na bagagem juntara o pequeno computador portátil onde escrevera e guardara, pensamentos, angústias e o medo de não conseguir resistir à ruína, de um corpo já doente e cansado. Precisava de mudar de vida. Esquecer a televisão, a leitura dos jornais, os comentários políticos e do futebol, as intrigas entre colegas, as traições, a eterna disputa entre os condóminos e procurar um lugar onde pudesse conviver com o sol, ouvir o vento e o canto dos pássaros, a água das fontes e regressar às origens. No Alentejo nascera e lá procuraria as memórias perdidas.

 

...

CRESPUCULO

A luz da manhã demora a romper as trevas. Sinto-me perdido, foi um sono entre o riso e o choro. Afinal tudo o que sonhei e vivi.

Nasci no verão de 42, um ano difícil, duro, como todos eles, naquele tempo de guerra. Nasci numa casa do Alentejo, de gente pobre, onde o pão era o fruto da terra regada pelo suor da família. Apesar do trabalho, esses dias deixaram recordações que me acompanharam.

A guerra colonial foi, também, uma escola para a vida. Nela aprendi a respeitar os direitos dos mais fracos e a assumir responsabilidades que nunca enjeitei. Era isso que tinha prometido aos soldados que comigo atravessaram a selva de África. Todos voltaram às suas terras. Eu aprendi mais uma lição, que guardei. Afinal, eu:

                   Fui guardador dos sonhos, que sonhei

                           E dos momentos que vivi.

                   Guardei memória do que amei

                   Escondi lágrimas pelo que perdi.

 

                         Fui guardador de estrelas que contei

                 Nas noites quentes em que não dormi.

                   Guardei os desgostos que calei

                   E a dor pelos dias felizes que esqueci.

 

                   Fui memória de histórias que inventei

                   Autor de poemas, que não escrevi.

                   Fui quase tudo o que não esperei ser

                   Nuvem, miragem e em tudo me perdi.

 

                         Sou lembrança do passado, do presente

                       Andarilho pelos caminhos que percorri

                         Cerro os punhos pela dor pungente

                       Que me dilacerou, mas a que não fugi.

 

                        Fui o princípio, o meio…… e o fim

                      Filho do sol e da lua, nascido da terra

                        Feito de um pó fino que o ventou vai levar

                      Partirei, procurando árvore para descansar.

A luz do dia traz força para o caminho. Teimo em viver, o mundo não acabara naquela noite. E com os passos incertos e as palavras gastas vou continuar a escrever histórias. Serão de Amor, Angústia, Raiva e Dor. Afinal histórias da vida.

 

A VIDA EM CONTRAMÃO

TEMPO DE CHORAR

 

Sentada na cadeira na beira da cama do hospital onde o Pai fora internado após o AVC, Carolina sentia uma dor profunda, uma angústia por se encontrar só, enfrentando uma morte anunciada.

Lia e relia o testamento vital que o Pai havia assinado e entregue ao médico de família. Sabia e compreendia que o Pai recusara tratamentos paliativos e utilização de suportes artificiais para prolongar a vida, mas os médicos sempre lhe fizeram notar que a ela caberia a última palavra.

E era essa a decisão que ela temia.

Durante a viajem de regresso a casa, deixando na grande cidade uma parte dos sonhos de que se alimentara durante dois anos, foi interiorizando que chegaria o momento em que teria que tomar uma decisão sobre a doença do Pai. Sabia da gravidade do acidente que atirara o Pai para o limbo, onde só o coração não deixara de bater, mas tinha uma secreta esperança que o Pai iria vencer a batalha e estender-lhe a mão.

Mas dois meses passaram e o Pai nunca deu sinais de recuperação.

- O seu Pai, em teoria não está a sofrer, disse-lhe o médico, mas eu acredito que pode não ser assim. A morte cerebral pode significar o fim de tudo mas, a dúvida pode ser uma dor difícil de enfrentar.

A Carolina sabe o que o seu Pai pensava e escreveu quando estava na plena posse das suas faculdades mentais. Por isso, nós, a equipa médica do Hospital entendemos que devemos desligar a máquina de suporte e deixa-lo partir.

Carolina balbuciou a palavra sim, quero respeitar a vontade do meu Pai.

E foi só, com o olhar nublado pelas lágrimas que teimavam em cair que sentiu o vazio. Começou a pensar que vira do olhar do Pai, antes do momento final, um sinal de gratidão e um adeus. Era com esse sinal, porventura imaginário, que enfrentou as palavras de despedida dos amigos, dos colegas e de alguns familiares que quase não conhecia.

O corpo seria cremado como o Pai havia escrito e as cinzas espalhadas pelos campos do Alentejo, terra que o vira nascer.

No final, Carolina refugiu-se em casa, no apartamento que o Pai lhe havia deixado em testamento. Percorria a casa mas já tinha decidido. A casa era demasiado grande para uma mulher solteira, que nem sabia o caminho a seguir.

 

 

A VIDA EM CONTRAMÃO

CAROLINA

Num momento a jovem independente, assim havia sido educada, sentiu que o céu havia caído sobre a sua cabeça.

Foi com coragem que acompanhou a agonia da Mãe e ainda mais o sofrimento do Pai.

Passava por momentos difíceis, ficara só. E aos vinte e quatro anos era o desabar dos sonhos.

O Pai parecia ter desistido de viver e ela tinha-o forçado a recorrer a ajuda médica para ultrapassar a crise. Foi aconselhado a pedir uma mudança do trabalho. O frenesi com que sempre se dedicara à investigação não seria agora compatível com a debilidade física e intelectual em que o Pai se deixara cair.

Carolina sentiu que o chão lhe fugia debaixo dos pés e que também os seus sonhos ameaçavam ruir.

Ganhara coragem para acompanhar o Pai no seu lento, mas evidente declínio, mas a um preço elevado. Iria abdicar do caminho que havia sonhado, esqueceria os seus projetos de futuro no campo da investigação apesar de ter sido convidada a frequentar um mestrado em Nova Iorque.

Mas agora, iria esquecer, apagar os sonhos e regressar ao quotidiano de tantos jovens como ela. Seria mais uma licenciada lutando por encontrar trabalho.

E o seu futuro foi o assunto da conversa que o Pai, numa noite de Outono triste e chuvoso, aparentando alguma recuperação física e olhando com ternura para a filha que se ocupava das lides domésticas, começou:

- Minha filha, eu devo-te muita da força que estou a recuperar depois de perder a tua Mãe. Tu tens sido a luz que me tem guiado e agora, é tempo de retomar o teu sonho. Eu vou-te exigir que o faças.

Conta com a ajuda do Pai. Escolhe o caminho e eu estarei a teu lado.

Eu sei que passaram longos meses que para ti foram também muito difíceis. Perdeste a Mãe, companheira e eu não fui capaz de te ajudar. Perdoa-me.

Agora sinto ter forças para viver porque sei que tu onde estiveres te lembrarás de mim como eu me de ti.

Carolina, surpreendida com a proposta do Pai, esboçou um gesto de recusa mas, mas abraçando-se ao Pai, sentiu o bater do coração e reconheceu que para ela e para ele, a vida teria que continuar.

Acabou por exigir que, ela apenas iria para Nova Iorque, desde que o Pai aceitasse ser acompanhado por alguém de confiança. Sugeriu uma senhora, mãe de família, vizinha e amiga, antiga professora, que conhecia desde os bancos da escola. O Pai aceitou.

E Carolina partiu, cheia de dúvidas mas prometendo a si mesma que a qualquer sinal voltaria a casa.

E ao despedir-se no Aeroporto, depois de terem combinado os contactos, Carolina sentiu que a força do abraço do Pai era mais do que uma despedida e tremeu. As palavras que o Pai lhe murmurava ao ouvido eram ditadas pela dor dum homem que teria deixado de encontrar uma razão para viver, pois, dizia-lhe: Com o tempo, com o tempo tudo irá desaparecer.

 

 

A VIDA EM CONTRAMÃO

LEONOR

 

Quando António se refugiava do seu quarto, revendo os anos passados, a vida com as suas alegrias e tristezas, o tempo era mau conselheiro. Tornara-se um homem que se abeirava dos quarenta, triste e melancólico. Para ele a vida passava a ser um mês de Novembro, com a chuva e nevoeiro contantes do seu dia-a-dia.

E então refugia-se dos processos que tinha que investigar, mastigava as ordens que recebia do Ministério Público em que deixara de acreditar.

Os dias eram longos, a noite o suplício. A lembrança de Marjorie não o deixava descansar. As recordações do seu sorriso, do seu olhar atento a tudo e para todos os que a rodeavam eram marcas que lhe deixara para sempre.

Para sempre?

Foram anos em que se sentira abandonado e esquecido. Apenas o trabalho lhe dava forças para continuar ativo, mas cada vez mais desgostoso da profissão que escolhera.

Os colegas sentiam o envelhecimento, as rugas de velhice, os cabelos brancos e tentavam trazê-lo à realidade. Era sempre convidado para encontros de família, festas de aniversário, mas sempre encontrara uma desculpa para faltar.

Até que um dia, aceitou jantar em casa do colega que o assessorava nos processos mais difíceis. Bernardo, assim se chamava o colega fez questão de salientar que não aceitaria uma desculpa. A minha amizade e consideração merecem.

E foi o princípio de uma nova estória de amor.

Durante o jantar ficou sentado de frente com Leonor, irmã do Bernardo e o que começou por ser uma conversa formal, pouco a pouco, transformou-se numa troca de experiências de vida.

António começou por contar momentos da sua vida passada, desde que a revolução em Portugal o colocara no caminho de alguém especial. Mas o tempo passara e, cinco anos depois, ficara apenas a recordação e, confessava, alguma, muita corrigiu, amargura

Também Leonor, fitando António com os olhos ternos contou a sua história.

- E disse:

-Sofro a tristeza do amor não correspondido. Conheci alguém que me fez sonhar e depois vim a saber que ele, nome não digo, era já casado e com filhos. Imagina eu, jovem de pouco mais de vinte anos, ter sido apenas uma escapadela para um homem comprometido.

Não mais esqueci e fechei-me na concha e prometi a mim mesma, que não mais me deixaria enganar.

António ficou fascinado com os olhos carentes daquela mulher ainda jovem. E sugeriu que duas vidas quase desfeitas pelo amor, podiam e deveriam continuar a conhecer-se.

E assim foi. De encontro em encontro, confidência após confidência, enamoraram-se e começaram a partilhar a companhia.

E o que começara numa conversa acabou num grande amor.

A paixão despertou aqueles corações magoados e deu-lhe nova vida.

Casaram em Setembro, viajaram para a Itália, que Leonor confessava ser o País do amor.

E amaram-se perdidamente. Dois corações feridos pela vida eram agora pulsares de ternura, amor e paixão.

Leonor engravidara algum tempo depois do casamento. Fora ela que assim quis, e não partilhou com António a razão por que ser Mãe naquela altura era tão importante e tinha um significado tão profundo.

E a gravidez, devidamente acompanhada pelo médico desde os primeiros sinais, acabou por chegar a seu termo e através de uma cesariana, deu à luz uma menina.

Carolina, foi o nome escolhido por Leonor que António aceitou.

E a felicidade foi plena durante os anos em que partilharam o crescimento de Carolina, o seu desenvolvimento na escola, era uma aluna excelente, e não teve qualquer dificuldade em seguir para a Universidade, com dezassete anos de idade.

Mas o destino foi cruel.

Leonor sentiu que o medo que sempre escondera, quando o médico mandou refazer alguns exames.

Tudo bem, pensava António, prevenir é melhor que remediar. Todavia Leonor tremeu. Ela sabia que nos seus genes haveria algo que teria recebido da Mãe, precocemente desaparecida. E essa herança era uma doença que lhe ria roubar a vida.

E foi um pequeno passo até ao fim.

Na cama do hospital Leonor segurou a mão de António com as forças que ainda lhe restavam e murmurou: “Morrer de amor”.

 

 

A VIDA EM CONTRAMÃO

SOLIDÃO

E António sofreu.

A dor da ausência da ternura dos braços de Marjorie, e lembrou com os olhos rasos de lágrimas, as noites loucas de paixão.

Tudo se esfumara e ele sentia a culpa.

Tinha-se entregue ao trabalho vivendo o dia-a-dia com a intensidade que o fez esquecer que a mulher com que partilhara os melhores anos da sua vida, se cansara e partira.

Não queria acreditar que as juras de amor que haviam trocado, se tinham perdido no quotidiano da sua vida profissional.

Foram tempos difíceis que António foi enfrentado com a embriaguez do seu trabalho.

Tentou o contacto com a revista para onde Marjorie dizia escrever, contando o florir dos cravos neste País triste, mas com surpresa não obteve nenhuma pista para seguir o caminho da mulher amada. Nem o nome era conhecido.

Tentou desesperadamente obter o apoio de um colega da Polícia de Paris, mas faltavam-lhe dados e a boa vontade do colega não foi suficiente. Apenas um jornalista desconhecido, lhe falou que Marjorie teria emigrado para o Canadá.

Foram dias, meses, anos de agonia até que António passou a pensar que Marjorie fora um sonho, uma fada do amor e que ele deixara fugir.

E a dor da solidão ficara a sua companheira.

E trabalho funcionava como um escape para uma mente amargurada e António deu tudo o que era capaz para levar a bom termo a investigação dos crimes que começavam a chover em catadupa sobre a sua secretária.

Porque as noites eram o suplício, deitava-se tarde escrevendo os relatórios sobre o trabalho, resumindo o sucesso e os casos que tenham prescrito, sem que ele e a sua equipa os tivessem resolvido. Não eram muitos, era certo e a maior parte deles casos de pouca importância. Todavia um caso em concreto lhe deu motivos para escrever longas notas.

Investigara ao longo de meses uma série de crimes com assinatura. Conseguira perceber o móbil dos crimes, tinha fortes suspeitas sobre os seus autores mas não conseguira reunir provas suficientes para um julgamento. Chamou aos apontamentos “Os crimes do X”. Tinha a convicção de que os crimes teriam sido cometidos por quem não acreditava na Justiça dos Tribunais e decidira fazer justiça pelas próprias mãos. Ali estava um assunto que ele gostaria de trabalhar, talvez sobre a forma de um romance, a escrever um dia.

Guardava todos os apontamentos, todos os recortes dos jornais e fizera algo que não faria sentido. Juntara também fotografias da sua passagem pela guerra, algumas situações de morte, agonia e violações.

A caixa era o repositório dos seus segredos, do seu trabalho, das suas frustrações e dos seus erros.

E durante cinco anos de solidão a caixa dos segredos a sua companha pelas noites de insónia.

 

 

 

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